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Progesterona ou progestina: o que cada uma faz e quando usar

Classificação das progestinas, perfil de cada molécula, vias da progesterona, endométrio, mama, trombose e intolerância: como escolher o progestagênio.

Dr. Leonardo Jacobsen

Por Dr. Leonardo Jacobsen

Ginecologia e ObstetríciaCRM/SC 20930 · RQE 17351

8 nov 202628 min de leitura41 referências

Neste artigo
  1. Progesterona, progestina ou progestagênio: qual a diferença?
  2. Como se classificam as progestinas?
  3. O que muda de uma progestina para outra?
  4. Por que a via da progesterona muda o efeito?
  5. Alopregnanolona: o que ela explica sobre sono e humor?
  6. Quando usar progesterona e quando usar progestina?
  7. Progesterona ou progestina: o que muda na mama?
  8. E no risco de trombose?
  9. Progestagênio e meningioma: o que se sabe?
  10. Intolerância à progesterona: o que fazer?
  11. Mulher sem útero precisa de progesterona?
  12. Quando a conduta muda?
  13. Em resumo

Progestagênio é a classe; progesterona é uma molécula só. A progesterona micronizada é a natural, idêntica à do corpo lúteo, e as progestinas são as sintéticas, com potência endometrial que varia centenas de vezes e ação própria nos receptores androgênico, glicocorticoide e mineralocorticoide [1, 5]. Não existe efeito de classe: o SIU de levonorgestrel não é "a progesterona do DIU", e o risco do acetato de medroxiprogesterona no WHI não é o da progesterona micronizada.

Boa parte dos erros que vejo na terapia hormonal começa nessa troca de nomes. Este texto organiza o que cada progestagênio faz, da classificação à conduta: como a via muda o efeito da progesterona, quando ela basta para proteger o endométrio e quando é preciso progestina, e o que muda na mama, na trombose e no meningioma.

Imagem ilustrativa: Progesterona
Foto: Diana Polekhina, no Unsplash

Progesterona, progestina ou progestagênio: qual a diferença?

Progestagênio é a classe. Pertence a ela toda substância que se liga ao receptor de progesterona e transforma o endométrio proliferativo, estimulado por estrogênio, em endométrio secretor [1]. Dentro da classe há uma molécula natural, idêntica à do corpo lúteo, a progesterona, e várias sintéticas, as progestinas. Quando escrevo progesterona, falo só da molécula isomolecular, que na prática é a progesterona micronizada [2].

Fora da gestação, quem produz progesterona de forma sistêmica é o corpo lúteo, e só na fase lútea; na fase folicular e na menopausa, o nível fica perto de zero [2]. Duas propriedades fisiológicas orientam a prescrição. O receptor de progesterona depende do estradiol para ser expresso, e por isso progesterona sem estrogênio tem pouco efeito endometrial. E, uma vez ligada ao receptor, a progesterona reduz a ação do estradiol no endométrio, que é a base de toda a proteção endometrial [2].

As progestinas nasceram para resolver dois limites da progesterona. O primeiro é a biodisponibilidade oral baixa, de menos de 10% [3]. O segundo é a contracepção: nas doses usadas na clínica, a progesterona não bloqueia o pico de LH, e as progestinas bloqueiam com miligramas ou microgramas [1, 2]. Daí os dois "poderes" da classe, transformar o endométrio e inibir a ovulação. A progesterona tem o primeiro; o segundo, na prática, é das progestinas.

Como se classificam as progestinas?

Pela molécula de que derivam [1]. A Figura 1 resume a classificação que uso nas aulas e no livro.

Classificação dos progestagênios. À esquerda, a única molécula natural; à direita, as progestinas, agrupadas pela estrutura de origem: progesterona, testosterona ou espironolactona

Figura 1. Classificação dos progestagênios. À esquerda, a única molécula natural; à direita, as progestinas, agrupadas pela estrutura de origem: progesterona, testosterona ou espironolactona. Repare que dienogeste e noretisterona estão no mesmo grupo químico, os estranos, e ainda assim têm perfis androgênicos opostos.

Fonte: Jacobsen L. Hormofem: terapia hormonal feminina. 4ª ed. São Paulo: Ed. do Autor; 2025. ISBN 978-65-01-71472-1 [2]. Adaptado de Schindler et al., 2008 [1].

  • Derivadas da progesterona. A didrogesterona, uma retroprogesterona, é a mais próxima da molécula natural, seletiva para o receptor de progesterona [1, 4].
  • Pregnanos (derivados da 17-hidroxiprogesterona). Acetato de medroxiprogesterona, acetato de ciproterona, acetato de clormadinona e acetato de megestrol.
  • Norpregnanos (derivados da 19-norprogesterona). Acetato de nomegestrol, trimegestona, promegestona e acetato de segesterona.
  • Estranos (derivados da 19-nortestosterona). Noretisterona e seu acetato, tibolona e dienogeste.
  • Gonanos (derivados da 19-nortestosterona). Levonorgestrel, desogestrel (pró-fármaco do etonogestrel), gestodeno, norgestimato e gestrinona.
  • Derivada da espironolactona. Drospirenona.

Entre as derivadas da 19-nortestosterona se fala em gerações. A primeira (noretisterona) e a segunda (levonorgestrel) são androgênicas; a terceira (desogestrel, etonogestrel, gestodeno) perdeu boa parte dessa força; e a quarta, o dienogeste, ficou antiandrogênica, com cerca de 40% da ação antiandrogênica da ciproterona [1, 2].

Gerações das progestinas derivadas da 19-nortestosterona. Pequenas mudanças no esqueleto da molécula, como um grupo etil ou um radical cianometil, deslocam a progestina de androgên

Figura 2. Gerações das progestinas derivadas da 19-nortestosterona. Pequenas mudanças no esqueleto da molécula, como um grupo etil ou um radical cianometil, deslocam a progestina de androgênica para antiandrogênica.

Fonte: Jacobsen L. Hormofem: terapia hormonal feminina. 4ª ed. São Paulo: Ed. do Autor; 2025. ISBN 978-65-01-71472-1 [2]. Adaptado de Umene et al., 2013.

O que muda de uma progestina para outra?

Dois eixos decidem a escolha: a potência no endométrio e a ação nos outros receptores esteroides.

Potência endometrial

King e Whitehead deram doses crescentes de cinco progestagênios orais a mulheres na pós-menopausa com endométrio preparado por estrogênio e mediram a dose que reproduzia o padrão secretor [5]. Tomando a noretisterona como 1, o levonorgestrel teve potência 8, o acetato de medroxiprogesterona 0,1, a didrogesterona 0,02 e a progesterona 0,002 [5]. É por isso que a dose terapêutica vai de 1 mg de noretisterona a 100 a 300 mg de progesterona [2].

0,002

Potência endometrial da progesterona em relação à noretisterona (valor 1): quinhentas vezes menor, a mais baixa entre os progestagênios testados [5].

Potência baixa não é ineficácia. Na dose e no tempo certos, a progesterona transforma o endométrio. O que ela não tem é margem: quando o estímulo estrogênico é grande ou o tecido resiste, a diferença de potência aparece no sangramento.

Ação nos outros receptores

Todas as moléculas ativam o receptor de progesterona; nos demais receptores, o comportamento muda muito (Figura 3).

Atividades biológicas da progesterona e das progestinas nos receptores esteroides. Leia por coluna: androgênicas (noretisterona, levonorgestrel, desogestrel, gestodeno), antiandrog

Figura 3. Atividades biológicas da progesterona e das progestinas nos receptores esteroides. Leia por coluna: androgênicas (noretisterona, levonorgestrel, desogestrel, gestodeno), antiandrogênicas (ciproterona, drospirenona, clormadinona, dienogeste), glicocorticoides (acetato de medroxiprogesterona, ciproterona, clormadinona) e antimineralocorticoides (progesterona e drospirenona). O "+" glicocorticoide da progesterona é dado experimental, sem relevância clínica.

Fonte: Jacobsen L. Hormofem: terapia hormonal feminina. 4ª ed. São Paulo: Ed. do Autor; 2025. ISBN 978-65-01-71472-1 [2]. Adaptado de Schindler et al., 2008 [1].

  • Androgênica. Noretisterona e levonorgestrel podem dar acne, pele oleosa e queda do HDL, e o levonorgestrel oral reduz a SHBG [1, 4]. No SIU, a exposição sistêmica é baixa, mas não zero.
  • Antiandrogênica. Ciproterona é a mais forte; drospirenona, clormadinona e dienogeste vêm depois [1]. Útil no hiperandrogenismo; o preço pode ser libido e humor, que eu sempre pergunto a quem usa dienogeste.
  • Glicocorticoide. O acetato de medroxiprogesterona ativa o receptor glicocorticoide, com retenção, ganho de peso e piora da tolerância à glicose [3, 4]. É a progestina do WHI, e essa diferença farmacológica é uma das razões pelas quais o resultado dela não se aplica à progesterona.
  • Antimineralocorticoide. Progesterona e drospirenona bloqueiam o receptor de aldosterona, com efeito diurético e discretamente hipotensor [1, 4]. As androgênicas tendem ao contrário.
  • Antiestrogênica no endométrio. É ação de todos: o progestagênio reduz a expressão do receptor de estrogênio, ativa a 17-beta-hidroxiesteroide desidrogenase tipo 2, que converte estradiol em estrona, e a sulfotransferase, que inativa a estrona [2, 4].

A progesterona, nesse quadro, é antimineralocorticoide, levemente antiandrogênica (compete pela 5-alfa-redutase) e sem ação glicocorticoide na clínica [2]. A didrogesterona é a progestina mais neutra depois dela: seletiva para o receptor de progesterona, sem efeito androgênico, glicocorticoide ou mineralocorticoide relevante, e também sem inibir a ovulação [1, 4].

O perfil das progestinas mais usadas

  • Didrogesterona. Uma dupla ligação a mais dobra a molécula e a protege da primeira passagem; por isso funciona por via oral em doses 10 a 20 vezes menores que as da progesterona [4]. É a troca que faço quando a paciente de risco não tolera progesterona.
  • Noretisterona e acetato de noretisterona. Androgênica, potente e com um detalhe pouco lembrado: parte dela é convertida em etinilestradiol no fígado, em quantidade que cresce com a dose [3]. Em dose baixa protege o endométrio na terapia hormonal; em dose alta, serve por curto prazo para conter sangramento, nunca como proteção contínua.
  • Levonorgestrel. Androgênica e a mais potente no endométrio entre as orais testadas por King e Whitehead [5]. No SIU, a liberação local garante proteção endometrial forte com exposição sistêmica baixa, o que o torna a saída quando a progesterona não dá conta.
  • Acetato de medroxiprogesterona. Pregnano com ação glicocorticoide e androgênica moderada [1]. Ainda é muito usada fora do Brasil; na terapia hormonal, sempre que possível, prefiro a progesterona ou a didrogesterona.
  • Dienogeste. Antiandrogênica, com ação anti-inflamatória e antiproliferativa no endométrio ectópico, e bloqueio eficaz da ovulação [1, 2]. É um dos pilares do tratamento clínico da endometriose; libido e humor são os efeitos que mais vigio.
  • Drospirenona. Antimineralocorticoide e antiandrogênica, como uma espironolactona com ação progestacional [1]. Serve à mulher que retém líquido, tem acne ou alopecia androgenética, ou não tolera uma progestina androgênica; o ponto fraco é o padrão de escape.

Por que a via da progesterona muda o efeito?

Porque a progesterona oral chega ao sangue já transformada. Ela é metabolizada no intestino, por bactérias com 5-beta-redutase e pela mucosa com 5-alfa-redutase, e depois no fígado, em mais de 30 metabólitos [3]. O pico vem em 1 a 3 horas, a biodisponibilidade oral ficou em 8,6% da intramuscular no estudo de Simon, e com alimento a absorção dobrou, sem mudar o tempo até o pico [3, 6]. Entre mulheres, os níveis variam até cinco vezes [2].

Dois grupos de metabólitos explicam a clínica. Alopregnanolona e pregnanolona modulam o receptor GABA-A e dão sonolência; num estudo cruzado, a relação entre esses neuroesteroides e a progesterona no plasma foi muito maior pela via oral que pela vaginal, com níveis de progesterona semelhantes [7]. Em dez mulheres na pós-menopausa, 300 mg orais por 21 dias reduziram o tempo acordada durante a noite sem prejudicar a cognição no dia seguinte [8]. A desoxicorticosterona, mineralocorticoide potente, explica a retenção de líquido que algumas mulheres relatam, apesar de a progesterona ser diurética [3].

Por causa do pico sedativo, oriento tomar a progesterona oral ao deitar. Pode ser com comida; o que não convém é tomar no jantar e ficar sonolenta antes da hora de dormir.

A via vaginal faz o contrário. Evita a primeira passagem hepática e concentra o hormônio no útero, a chamada primeira passagem uterina. Em mulheres sem função ovariana preparadas para receber embriões doados, a concentração de progesterona no endométrio foi de 11,5 ng/mg de proteína com a via vaginal e de 0,3 com a intramuscular, embora o nível sérico fosse maior com a injeção [9]. Nas doses usuais, quase não forma alopregnanolona, e o efeito sedativo some [7].

A via transdérmica não chega ao endométrio. O corpo lúteo produz cerca de 25 mg de progesterona por dia, contra 0,1 a 0,5 mg de estradiol, e a pele não absorve essa massa [2]. Com 16, 32 ou 64 mg diários de creme do 15º ao 28º dia, nenhuma das 27 mulheres teve transformação secretora, e a progesterona salivar variou tanto que foi considerada inútil para monitorar [10]. As revisões sistemáticas concluem o mesmo: a progesterona transdérmica não protege o endométrio [11, 12].

Tabela 1. O que muda com a via de administração da progesterona.

Característica Oral Vaginal Transdérmica (creme ou gel)
Nível sérico Pico em 1 a 3 horas, queda rápida Pico mais tardio, níveis mais sustentados Em geral até 1 ng/mL
Metabolismo Intestinal e hepático, mais de 30 metabólitos Primeira passagem uterina Sem nível sistêmico útil
Alopregnanolona Alta, com picos suprafisiológicos Mínima nas doses usuais Sem efeito
Endométrio Protege em dose e tempo adequados Alta concentração uterina; na terapia hormonal, uso fora da bula Não protege
Onde eu uso Terapia hormonal, perimenopausa, anovulação Intolerância à oral, reprodução assistida Não uso para endométrio

Adaptado de Kuhl, 2005 [3]; de Lignières et al., 1995 [7]; Miles et al., 1994 [9]; Wren et al., 2000 [10]; Stute et al., 2016 [11]; Ruan e Mueck, 2014 [12].

Alopregnanolona: o que ela explica sobre sono e humor?

A alopregnanolona não se liga ao receptor de progesterona. Ela age no GABA-A, o mesmo sistema dos benzodiazepínicos, e é a ponte entre progesterona, sono e ansiedade [7, 13]. A Figura 4 mostra a diferença entre as vias.

Progesterona, alopregnanolona e pregnanolona no plasma depois de 200 mg por via oral e 400 mg por via vaginal. Pela boca, a alopregnanolona supera a própria progesterona; pela vagi

Figura 4. Progesterona, alopregnanolona e pregnanolona no plasma depois de 200 mg por via oral e 400 mg por via vaginal. Pela boca, a alopregnanolona supera a própria progesterona; pela vagina, a progesterona sobe e os neuroesteroides quase não aparecem.

Fonte: Jacobsen L. Hormofem: terapia hormonal feminina. 4ª ed. São Paulo: Ed. do Autor; 2025. ISBN 978-65-01-71472-1 [2]. Adaptado de de Lignières et al., 1995 [7].

Há um outro lado. Moduladores positivos do GABA-A provocam reação paradoxal forte em 3% a 8% das pessoas expostas e moderada em até 25%, e a curva da alopregnanolona sobre o humor tem forma de U invertido: os sintomas negativos aparecem em concentrações parecidas com as da fase lútea [13]. É o mecanismo proposto para o transtorno disfórico pré-menstrual.

Quando usar progesterona e quando usar progestina?

Proteção endometrial na terapia hormonal

Toda mulher com útero que recebe estrogênio sistêmico precisa de progestagênio [14, 29]. A progesterona micronizada protege o endométrio em dose adequada e por 12 a 14 dias por mês: no PEPI, 200 mg por 12 dias deixaram a taxa de hiperplasia igual à do placebo em três anos, e a revisão de Stute confirmou proteção por até cinco anos com 200 mg sequenciais [11, 14]. Menos de 10 dias por mês de progestagênio deixou o risco de câncer três vezes maior [15]. O esquema contínuo protege mais que o sequencial, e o sequencial longo associa-se a risco maior [16]. Por isso uso o sequencial por até cerca de cinco anos e depois passo ao contínuo. A diretriz da IMS de 2025 chegou ao mesmo ponto: pede no mínimo 12 dias de progesterona ou didrogesterona por ciclo, dose proporcional à do estrogênio, avisa que a evidência da progesterona sequencial além de cinco anos é limitada e recomenda passar ao contínuo depois de cinco anos ou aos 54 anos, o que vier primeiro [29].

A dose acompanha a do estradiol (Tabela 2). A discussão completa dos estudos, inclusive do sinal das coortes francesas, está no texto sobre o teste de progesterona e o câncer de endométrio.

Tabela 2. Dose diária dos progestagênios para proteção endometrial na combinação livre com estradiol (da dose baixa à dose alta de estradiol).

Progestagênio Esquema contínuo Esquema sequencial (12 a 14 dias por mês)
Progesterona micronizada oral 100 a 300 mg 200 a 400 mg
Didrogesterona 5 a 20 mg 10 a 20 mg
Acetato de medroxiprogesterona 2,5 a 10 mg 5 a 20 mg
Noretisterona 0,5 a 2 mg 1 a 2 mg
Dienogeste 2 a 4 mg 2 a 4 mg
Drospirenona 2 a 4 mg Sem dose definida
SIU de levonorgestrel 20 mcg por dia Não se aplica

Adaptado de Jacobsen, 2025 [2].

O limite da progesterona é a potência. Na mulher com obesidade, endometriose, adenomiose ou hiperplasia prévia, ela pode não dar conta: a paciente sangra, e o endométrio pede uma molécula mais forte. Nesses casos eu passo a uma progestina mais potente ou ao SIU de levonorgestrel, que protege o endométrio da dose ultrabaixa à alta de estradiol por até cinco anos [29].

A Tabela 3 reúne como as sociedades britânica e norte-americana ajustam o progestagênio diante de sangramento fora de hora e nas situações em que a proteção costuma falhar [39, 40].

Tabela 3. Ajuste do progestagênio na terapia hormonal: sangramento e situações de risco para o endométrio.

Situação O que as diretrizes recomendam
Sequencial com sangramento até o 10º dia do progestagênio Sinal de proteção insuficiente, com endométrio ainda proliferativo; o sangramento esperado vem do 11º dia em diante [40]
Sangramento não programado no sequencial Aumentar a dose (progesterona de 200 para 300 mg) ou o tempo (14 dias por mês, ou 21 de cada 28), ou trocar o progestagênio [39]
Sangramento não programado no contínuo Aumentar a dose (progesterona de 100 para 200 mg por dia) ou trocar o progestagênio, sobretudo com estradiol em dose alta; com SIU de levonorgestrel ou combinação fixa, acrescentar progestagênio oral. Se começou após a passagem ao contínuo e não cede em 3 a 6 meses, voltar ao sequencial por mais um ano [39]
Sangramento que persiste além de 4 a 6 meses apesar do ajuste, ou padrão preocupante Ultrassonografia transvaginal e biópsia endometrial; histeroscopia quando indicada [39]
Progesterona por via vaginal Uso fora da bula, na mesma dose e duração da via oral; no ELITE, gel vaginal de 45 mg por 10 dias ao mês não bastou contra 1 mg de estradiol oral [39, 40]
SIU de levonorgestrel de 13,5 ou 19,5 mg ou desogestrel de 75 mcg como contraceptivo Sem dados de proteção endometrial: acrescentar progesterona (100 mg por dia ou 200 mg por 12 dias ao mês) [39]
Progesterona em creme ou gel na pele Não protege; a mulher fica exposta a hiperplasia e precisa de biópsia para documentar endométrio secretor [39, 40]

Adaptado de Hamoda, British Menopause Society, 2021 [39]; Liu, 2025 [40].

A progesterona protege o endométrio quando a dose e o tempo estão certos. O que ela não tem é potência de sobra, e na obesidade, na endometriose e na adenomiose quem protege é a progestina.

Dr. Leonardo Jacobsen

Contracepção

Quem impede a ovulação na pílula combinada é a progestina; o estrogênio entra para estabilizar o endométrio e reduzir o escape [1, 2]. Por isso existem métodos só de progestagênio (pílula, implante, SIU, injetável) e nenhum só de estrogênio. A progesterona não serve para contracepção nas doses toleradas pela via oral [2]. A escolha da progestina pesa no risco trombótico, assunto da seção sobre trombose.

Endometriose e adenomiose

Aqui a progesterona falha por dois motivos. Não bloqueia o eixo, e o pico estrogênico continua a estimular os focos. E o tecido endometriótico resiste à progesterona, por alterações genéticas, epigenéticas e inflamatórias no receptor; progestinas como o dienogeste podem superar essa resistência ao aumentar a expressão do receptor e reduzir citocinas inflamatórias [17]. A diretriz da ESHRE recomenda progestagênios entre as opções hormonais para a dor da endometriose [18], e a revisão Cochrane de 2025 concluiu que os progestagênios orais provavelmente reduzem a dor e a dismenorreia em relação ao placebo, com evidência menos firme na comparação com outros bloqueios [37]. Uso dienogeste, drospirenona, noretisterona, SIU de levonorgestrel e, na minha prática, gestrinona, escolhendo pelo perfil de efeitos colaterais. Fora o dienogeste, a dose que trata a endometriose fica muito acima da que transforma o endométrio, com mais efeito colateral e menos estudo (Figura 5) [38].

Progestinas orais no tratamento da endometriose. Na tabela de cima, compare a dose que transforma o endométrio em um ciclo com a dose diária recomendada para a doença: o dienogeste

Figura 5. Progestinas orais no tratamento da endometriose. Na tabela de cima, compare a dose que transforma o endométrio em um ciclo com a dose diária recomendada para a doença: o dienogeste trata com um comprimido de 2 mg; desogestrel, clormadinona, medroxiprogesterona e didrogesterona, marcados com asterisco como uso fora da bula, pedem de dois a vinte comprimidos por dia. Na de baixo, "admission" é a aprovação para endometriose no país dos autores, e o que pesa é a falta de estudos controlados por placebo e de dados de longo prazo para as outras progestinas.

Reproduzido de Piriyev et al., 2025 [38], Tabelas 2 e 3 (em inglês, legenda traduzida). Artigo de acesso aberto, licença CC BY 4.0.

Anovulação, sangramento uterino anormal e perimenopausa

Na mulher que não ovula, o endométrio prolifera sem oposição. Sem necessidade de contracepção, uso progesterona cíclica de 12 a 14 dias por ciclo; com contracepção, obesidade importante ou sangramento intenso, progestina contínua ou SIU de levonorgestrel [2]. Na amenorreia secundária por anovulação, como na SOP, a progesterona cíclica induz uma descamação organizada e protege o endométrio. As progestinas cíclicas também funcionam, mas algumas exigem contracepção segura durante o uso, e a progesterona não é boa opção contínua: não controla o sangramento como uma progestina e não protege de gravidez [2]. Na perimenopausa inicial sem doença estrogênio-dependente, a progesterona cíclica do 14º ao 27º dia regulariza o ciclo; com fluxo intenso, adenomiose, mioma ou hiperplasia, a conduta é o bloqueio com progestina, porque a progesterona não freia a flutuação do eixo [2]. Esse raciocínio está detalhado no texto sobre sangramento intenso na perimenopausa.

Progesterona ou progestina: o que muda na mama?

O medo veio do WHI, em que estrogênios conjugados com acetato de medroxiprogesterona aumentaram o câncer de mama invasivo, com razão de risco de 1,26 [19]. A pergunta é se isso vale para os outros progestagênios.

Na coorte francesa E3N, com 80.377 mulheres e oito anos de seguimento médio, o risco relativo foi 1,00 com estrogênio e progesterona, 1,16 com estrogênio e didrogesterona (sem significância) e 1,69 com estrogênio e as demais progestinas [20]. A revisão sistemática de Stute concluiu que estrogênio com progesterona micronizada não aumenta o risco de câncer de mama em até cinco anos, com evidência limitada de aumento depois disso [21]. Numa biópsia mamária randomizada, estrogênios conjugados com acetato de medroxiprogesterona elevaram muito a proliferação celular, e estradiol em gel com progesterona oral não; a diferença entre os grupos ficou no limite da significância [22].

Outras bases apontam na mesma direção. A metanálise de Asi, que juntou os estudos com comparação direta, achou com a progesterona risco 33% menor que com as progestinas (risco relativo 0,67), mas quase todo o peso veio da própria E3N (Figura 6) [30]. Numa base britânica com 43.183 casos, a razão de chances foi 0,99 com progesterona micronizada e 1,28 com progestinas [31]. Numa coorte nacional coreana com 153.736 usuárias, nenhuma combinação com progesterona micronizada aumentou o risco, enquanto estradiol com drospirenona, noretisterona, didrogesterona ou ciproterona aumentou [32].

Metanálise de câncer de mama comparando progesterona e progestinas sintéticas, ambas associadas ao estrogênio. Olhe o losango: a estimativa conjunta (0,67) fica à esquerda da linha

Figura 6. Metanálise de câncer de mama comparando progesterona e progestinas sintéticas, ambas associadas ao estrogênio. Olhe o losango: a estimativa conjunta (0,67) fica à esquerda da linha do 1, do lado da progesterona natural. Olhe também a coluna de peso: a coorte E3N responde por 97% do resultado, e por isso a metanálise confirma a E3N mais do que acrescenta dado novo.

Fonte: Asi et al., Syst Rev 2016 [30], Figura 2; acesso aberto, licença CC BY 4.0.

O contraponto honesto vem da metanálise de dados individuais do Collaborative Group: entre 5 e 14 anos de uso, o risco com progesterona micronizada (risco relativo 2,05) não diferiu muito do das outras combinações, com poucas usuárias e intervalo largo; com didrogesterona, pareceu um pouco menor [33]. A IMS resume bem: o risco parece menor com progesterona micronizada ou didrogesterona que com as outras progestinas, e faltam dados para comparar tipos, doses e vias [29].

E no risco de trombose?

Na terapia hormonal, a via do estrogênio pesa mais, e o progestagênio pesa junto. No estudo de caso-controle ESTHER, progesterona micronizada e pregnanos não se associaram a trombose (razão de chances de 0,7 e 0,9), e os norpregnanos quadruplicaram o risco [23]. Na coorte E3N, com 80.308 mulheres, a progesterona foi neutra (0,9), pregnanos e nortestosteronas ficaram sem associação significativa, e os norpregnanos aumentaram o risco (1,8) [24]. Na base britânica de Vinogradova, com 80.396 casos, estradiol oral com didrogesterona teve o menor risco entre as combinações orais (razão de chances de 1,18, sem significância), e nenhuma preparação transdérmica aumentou o risco [34]. A Figura 7 mostra essa base inteira.

Terapia hormonal e tromboembolismo venoso nas bases britânicas QResearch e CPRD, em razão de chances ajustada (o asterisco marca p<0,01). Olhe primeiro o bloco "Transdermal

Figura 7. Terapia hormonal e tromboembolismo venoso nas bases britânicas QResearch e CPRD, em razão de chances ajustada (o asterisco marca p<0,01). Olhe primeiro o bloco "Transdermal HRT": estradiol isolado ou combinado fica sobre a linha do 1, em qualquer dose. Depois compare os progestagênios associados ao estradiol oral: didrogesterona (1,18) sem significância, medroxiprogesterona (1,44) e noretisterona (1,68) com risco maior. Embaixo, o risco do estrogênio oral cresce com a dose. A progesterona micronizada não aparece no gráfico.

Reproduzido de Vinogradova et al., 2019 [34], Figura 3 (em inglês, legenda traduzida). Artigo de acesso aberto, licença CC BY 4.0.

3,9

Razão de chances de tromboembolismo venoso com norpregnanos na terapia hormonal, no estudo ESTHER; com progesterona micronizada, 0,7 [23].

Na contracepção, a lógica é outra. A progestina isolada não aumentou o risco: na metanálise de Mantha, o risco relativo foi 1,03 para os métodos só de progestagênio, 0,90 para a pílula e 0,61 para o SIU; o injetável de depósito foi a exceção, com 2,67 [25]. Associada ao etinilestradiol, a progestina muda o tamanho do risco: na metanálise em rede de Stegeman, com a mesma dose de etinilestradiol (30 a 35 mcg), pílulas com gestodeno, desogestrel, ciproterona ou drospirenona tiveram risco 50% a 80% maior que as com levonorgestrel [26]. Vale lembrar a base: o uso de pílula combinada aumentou cerca de 3,5 vezes o risco de trombose em relação a não usar, e a dose de etinilestradiol também pesou [26].

Progestagênio e meningioma: o que se sabe?

É o sinal de segurança mais recente da classe, e de novo não é efeito de classe. No estudo nacional francês de Roland, com 18.061 mulheres operadas de meningioma, o acetato de ciproterona multiplicou a chance por 19; acetato de nomegestrol (4,9), acetato de clormadinona (3,9), medrogestona (3,5), acetato de medroxiprogesterona injetável (5,6) e promegestona (2,4) também aumentaram, sobretudo com uso por mais de um ano [35]. Progesterona oral, vaginal ou percutânea, didrogesterona e SIU de levonorgestrel não aumentaram (Figura 8) [35].

Progestagênios e risco de meningioma intracraniano operado, em casos e controles da base nacional francesa. A escala é logarítmica: tudo à direita da linha do 1 é risco maior. No a

Figura 8. Progestagênios e risco de meningioma intracraniano operado, em casos e controles da base nacional francesa. A escala é logarítmica: tudo à direita da linha do 1 é risco maior. No alto ficam ciproterona, medroxiprogesterona injetável, nomegestrol, clormadinona, medrogestona e promegestona; embaixo, encostados no 1, progesterona percutânea, didrogesterona, espironolactona, SIU de levonorgestrel de 52 mg e progesterona oral ou vaginal.

Fonte: Roland et al., BMJ 2024 [35], Figura 2; acesso aberto, licença CC BY-NC 4.0.

A metanálise de 2026 confirmou o sinal para ciproterona (razão de chances de 12,4) e medroxiprogesterona de depósito (2,7), não achou sinal para levonorgestrel, progesterona e didrogesterona e considerou insuficientes os dados do dienogeste [36]. Houve regressão do tumor depois da suspensão com ciproterona e nomegestrol [36].

Intolerância à progesterona: o que fazer?

Na minha prática, 5% a 10% das mulheres não toleram a progesterona oral. É estimativa clínica, não dado de estudo. As queixas são sonolência que invade o dia, humor pior, ansiedade, inchaço, mastalgia, cefaleia e intestino preso. A explicação está no metabolismo: o perfil de metabólitos varia muito entre mulheres, por genética, microbiota e peso [2, 3]. Acredito na paciente: se ela diz que piorou, piorou.

Antes de trocar, separo intolerância de efeito transitório. Na terapia hormonal, mastalgia e escape nas primeiras semanas são esperados e costumam ceder, e a paciente que foi avisada antes atravessa essa fase sem abandonar o tratamento [2]. Intolerância verdadeira é o sintoma que se repete a cada dose, ou que não cede com o tempo.

Mulher sem útero precisa de progesterona?

As diretrizes dizem que não: a indicação formal do progestagênio na terapia hormonal é a proteção endometrial, e a mulher histerectomizada recebe estrogênio isolado [27]. Uma exceção aceita é a endometriose prévia, em que o progestagênio contínuo ajuda a evitar a reativação de focos residuais [2].

Penso diferente em parte das pacientes. A progesterona tem receptores muito além do útero, e há ensaios pequenos com desfechos clínicos: 300 mg ao deitar reduziram os sintomas vasomotores mais que o placebo em 12 semanas, num estudo com 133 mulheres no início da pós-menopausa, e melhoraram o sono no estudo de polissonografia [8, 28]; a IMS reconhece que a progesterona ao deitar melhora o sono na pós-menopausa [29], e a revisão de 2026 mostra o tamanho real dessa evidência (Figura 9) [41]. Na histerectomizada com risco alto de câncer de mama, mantenho só o estrogênio. Na de risco baixo, com sono, humor ou fogachos que persistem, ofereço a progesterona como teste; se ela não sente diferença ou não tolera, volto ao estrogênio isolado [2]. É conduta individual, com evidência limitada, e a paciente precisa saber disso.

Ensaios com progestagênio isolado na menopausa, por sintoma. Olhe as duas primeiras linhas: 300 mg de progesterona micronizada ao deitar melhoraram os fogachos na pós-menopausa; na

Figura 9. Ensaios com progestagênio isolado na menopausa, por sintoma. Olhe as duas primeiras linhas: 300 mg de progesterona micronizada ao deitar melhoraram os fogachos na pós-menopausa; na perimenopausa, o estudo não teve poder para o desfecho principal, mas melhorou suor noturno, sono e qualidade de vida. No sono, a evidência é moderada; no humor, o efeito foi neutro, com evidência muito baixa. Os maiores efeitos sobre fogachos vêm de medroxiprogesterona e acetato de megestrol em doses altas, muitas vezes em sobreviventes de câncer de mama, e o creme de progesterona deu resultados divergentes.

Reproduzido de Thomas et al., 2026 [41], Tabela 1, parte de sintomas vasomotores, sono e humor (em inglês, legenda traduzida). Artigo de acesso aberto, licença CC BY 4.0.

Quando a conduta muda?

  • Sangramento persistente na terapia hormonal com progesterona pede avaliação endometrial antes de trocar a molécula; afastada lesão, a troca é por progestina mais potente ou SIU [2].
  • Obesidade, endometriose, adenomiose ou hiperplasia prévia pesam a favor de progestina potente ou SIU de levonorgestrel já no início.
  • Necessidade de contracepção exclui a progesterona como método.
  • Risco trombótico alto pede estradiol transdérmico com progesterona e afasta os norpregnanos [23, 24].
  • TDPM com piora a cada dose muda o objetivo: em vez de repor progesterona, suprimir a ovulação [13].
  • Meningioma prévio ou uso longo de ciproterona, nomegestrol ou clormadinona pede rever a molécula; progesterona, didrogesterona e SIU de levonorgestrel não mostraram sinal [35, 36].
  • Mulher em uso de progesterona transdérmica está sem proteção endometrial e precisa de nova prescrição [10, 11].

Em resumo

Progestagênio é uma classe sem efeito de classe. A progesterona micronizada é a molécula natural, a menos potente no endométrio e a de perfil mais favorável na mama e na trombose; protege o útero em dose adequada e por 12 a 14 dias por mês, mas não bloqueia o eixo e pode não bastar na obesidade, na endometriose e na adenomiose. As progestinas variam em potência e em ação androgênica, antiandrogênica, glicocorticoide e mineralocorticoide, e são indispensáveis na contracepção e nas doenças estrogênio-dependentes. A via da progesterona muda o efeito: a oral dá sono, a vaginal concentra no útero, a transdérmica não protege. Escolher o progestagênio é escolher uma molécula, não uma classe.

O que muda no consultório

  1. 1Na terapia hormonal com útero, prescreva progesterona micronizada oral por 12 a 14 dias por mês no sequencial ou todas as noites no contínuo, na dose proporcional ao estradiol.
  2. 2Na obesidade, endometriose, adenomiose ou hiperplasia prévia, considere desde o início progestina mais potente ou SIU de levonorgestrel.
  3. 3Oriente a tomar a progesterona oral ao deitar; com comida, a absorção dobra.
  4. 4Nunca use progesterona em creme ou gel para proteger o endométrio.
  5. 5Diante de intolerância, mude primeiro a via (vaginal), depois a molécula (didrogesterona ou SIU-LNG).
  6. 6Na mulher com TDPM que piora com progesterona, suspenda no mesmo dia e passe ao bloqueio da ovulação.
  7. 7Com risco trombótico, combine estradiol transdérmico com progesterona micronizada e evite norpregnanos.

Perguntas frequentes

Progesterona e progestina são a mesma coisa?

Não. Progesterona é a molécula natural, igual à produzida pelo corpo lúteo; progestinas são moléculas sintéticas derivadas da progesterona, da testosterona ou da espironolactona. As duas pertencem à classe dos progestagênios, mas têm potência, efeitos colaterais e perfil de segurança diferentes.

Progesterona micronizada protege o endométrio na terapia hormonal?

Protege, em dose adequada e por 12 a 14 dias por mês no regime sequencial, ou todas as noites no contínuo, com a dose acompanhando a do estradiol. É o progestagênio menos potente, e na obesidade, na endometriose e na adenomiose pode não bastar.

Progesterona em creme ou gel na pele protege o endométrio?

Não. Os níveis séricos ficam em torno de 1 ng/mL ou menos, e em biópsia o endométrio continuou proliferativo com 16 a 64 mg por dia de creme. Dosar na saliva não resolve: os valores são instáveis e não refletem o efeito no tecido.

Qual o melhor horário para tomar progesterona oral? Pode ser com comida?

Ao deitar, porque o pico vem em 1 a 3 horas e traz sonolência. Pode ser tomada com alimento: a absorção praticamente dobra, sem mudar o tempo até o pico. O que não convém é tomar no jantar e ficar sonolenta antes da hora de dormir.

Por que a progesterona oral dá sono?

Porque o fígado e o intestino a transformam em alopregnanolona e pregnanolona, que modulam o receptor GABA-A como um sedativo leve. A intensidade varia muito entre mulheres. Pela via vaginal, nas doses usuais, esse efeito praticamente não aparece.

Progesterona incha ou engorda?

A progesterona é antimineralocorticoide e, em princípio, diurética. Algumas mulheres, porém, formam mais desoxicorticosterona pela via oral e retêm líquido. Quando a queixa aparece, vale acreditar na paciente e testar a via vaginal ou outra molécula.

Progesterona aumenta o risco de câncer de mama?

Nos estudos observacionais, a combinação de estrogênio com progesterona micronizada não aumentou o risco em até cinco anos e teve risco menor que as progestinas. Acima de cinco anos, o sinal é incerto: uma metanálise de dados individuais encontrou aumento parecido com o das outras combinações, com poucas usuárias. O aconselhamento sobre mama vale para qualquer progestagênio.

O SIU de levonorgestrel é progesterona?

Não. Libera levonorgestrel, uma progestina androgênica e muito potente no endométrio. Por isso protege bem o útero mesmo quando a progesterona não dá conta, e por isso também pode dar acne em parte das usuárias.

Mulher sem útero precisa de progesterona?

As diretrizes dizem que não, porque a indicação formal é a proteção endometrial. Na minha prática, a mulher sem útero com baixo risco de câncer de mama e sintomas persistentes de sono, humor ou fogachos pode receber progesterona como teste; se não sentir diferença, fica só com o estrogênio.

Progestina aumenta o risco de trombose?

Isolada, em pílula ou SIU, não aumentou o risco em metanálise. Associada ao etinilestradiol, desogestrel, gestodeno, ciproterona e drospirenona tiveram risco maior que o levonorgestrel. Na terapia hormonal, os norpregnanos aumentaram a trombose, e a progesterona foi neutra.

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Como citar este artigo

Jacobsen L. Progesterona ou progestina: o que cada uma faz e quando usar. Blog Científico HORMOFEM [Internet]. 2026 nov 8. Disponível em: https://hormofem.com.br/blog/progesterona-ou-progestina/

Dr. Leonardo Jacobsen

Ginecologia e Obstetrícia · CRM/SC 20930 · RQE 17351

Ginecologista, professor e pesquisador em endocrinologia feminina. Fundador da Escola HORMOFEM e autor do livro Terapia Hormonal Feminina.

Conteúdo educativo destinado a profissionais de saúde. Não substitui a avaliação individual nem estabelece conduta para um caso específico.