Desejo sexual baixo só vira transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH) quando há sofrimento por pelo menos seis meses [1], e a causa raramente é só hormonal. O desejo da mulher depende do cérebro, dos hormônios, da relação, do humor, do sono, dos medicamentos e da ausência de dor, e o erro mais comum é tratar uma dessas peças como se fosse a máquina inteira.
A pergunta "isso é hormônio?" tem resposta honesta: às vezes é, muitas vezes não é só isso. Este texto organiza o raciocínio: como o desejo funciona, o que acontece no corpo durante a excitação, as causas que precisam ser procuradas antes de qualquer prescrição e a escada de tratamento, da terapia sexual à testosterona transdérmica na pós-menopausa, até o ponto em que a evidência termina.
O que é TDSH e quando o desejo baixo vira transtorno?
O transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH, o HSDD da literatura) é a falta ou a perda da motivação para a atividade sexual, que se manifesta como desejo espontâneo ausente ou reduzido, desejo responsivo ausente ou reduzido diante de estímulo erótico, ou incapacidade de manter o interesse depois que a atividade começa, por pelo menos seis meses, sempre acompanhada de sofrimento [1]. Essa é a definição da International Society for the Study of Women's Sexual Health (ISSWSH), construída para a prática clínica [2]. O DSM-5 fundiu desejo e excitação num único transtorno do interesse e da excitação; a CID-11 manteve os dois separados, porque têm fatores de risco diferentes e respondem a intervenções diferentes [3].
A distinção muda os números. No inquérito americano PRESIDE, com 31.581 mulheres, 43,1% relataram algum problema sexual, mas só 12,0% tinham problema acompanhado de sofrimento, com pico de 14,8% entre 45 e 64 anos [4]. Num estudo australiano com 10.554 mulheres, o desejo baixo aumentou com a idade, de 27,4% aos 18 a 24 anos para 91,6% aos 75 a 79, enquanto o sofrimento caiu depois dos 40; o TDSH subiu de 12,2% nas mais jovens para 33,4% aos 40 a 44 anos e caiu para 7,3% no fim da vida [5]. No Brasil, o Estudo da Vida Sexual do Brasileiro encontrou TDSH em 9,5% das mulheres, associado a estresse pós-traumático, pouca informação sobre sexualidade e repertório sexual limitado [35]. O TDSH é, antes de tudo, um problema da meia-idade.
Das mulheres de 40 a 44 anos tinham desejo baixo com sofrimento no estudo australiano de base comunitária [5].
Como funciona o desejo sexual da mulher?
Do modelo linear ao modelo circular
O primeiro mapa da resposta sexual veio da observação de laboratório de Masters e Johnson, nos anos 1960: excitação, platô, orgasmo e resolução, em sequência. Kaplan acrescentou o desejo antes da excitação e, com ele, a ideia de que o desejo pode faltar, o embrião do diagnóstico de desejo hipoativo [44, 45]. É o modelo que mostro na aula de libido, com as curvas que comparam homem e mulher.

Figura 1. O modelo linear da resposta sexual. À esquerda, o homem: excitação, platô, um orgasmo e o período refratário, que impede um novo orgasmo logo em seguida. À direita, três padrões possíveis na mulher: a curva A, com dois picos, mostra orgasmos múltiplos sem período refratário; a curva B fica no platô sem orgasmo e resolve devagar; a curva C sobe aos solavancos até um único orgasmo intenso e resolve rápido. Já no modelo linear, a resposta feminina é mais variável do que a masculina.
Adaptado de Masters e Johnson, como apresentado na aula sobre libido feminina da Escola HORMOFEM (ilustração redesenhada pela Escola HORMOFEM); modelo discutido em Basson, 2001 [44].
O modelo linear supõe que tudo começa com um desejo espontâneo. Em 2000, Rosemary Basson propôs um modelo circular que descreve melhor muitas mulheres em relações longas, com o objetivo explícito de evitar que se diagnostique disfunção quando a resposta é apenas diferente do ciclo tradicional [6]. É a descrição que o manual de saúde sexual da FEBRASGO adota hoje [48].
O controle duplo: excitação contra inibição
O modelo de controle duplo, de Bancroft e Janssen, trata o desejo como o saldo entre um sistema que acelera e outro que freia [46]. O desejo aparece quando a excitação supera a inibição; o TDSH pode vir de excitação insuficiente, de inibição excessiva ou das duas, e a neuroimagem de mulheres com TDSH mostra menos atividade nas áreas de recompensa e mais nas de autofoco e julgamento [47]. Do lado do acelerador estão dopamina, noradrenalina, melanocortinas e ocitocina; do lado do freio, serotonina, opioides, prolactina e endocanabinoides [1].
Tabela 1. Hormônios e neurotransmissores da resposta sexual feminina: quem acelera e quem freia.
| Sistema | Mediador | Papel na resposta sexual |
|---|---|---|
| Acelerador | Dopamina | Motivação e busca de recompensa; inicia a resposta autonômica |
| Acelerador | Noradrenalina | Ativação cerebral e autonômica; sobe ao longo do ciclo |
| Acelerador | Melanocortinas (α-MSH) | Potencializam o desejo via dopamina; alvo da bremelanotida |
| Acelerador | Ocitocina | Aproximação física, fluxo sanguíneo genital, contrações do orgasmo |
| Acelerador | Óxido nítrico | Vasocongestão pélvica e lubrificação |
| Acelerador | Estradiol | Sensibiliza o cérebro, libera dopamina, mantém a mucosa e a síntese de óxido nítrico |
| Acelerador | Testosterona | Fantasias e disponibilidade; sensibiliza receptores de dopamina e noradrenalina |
| Freio | Serotonina | Saciedade; inibe dopamina e noradrenalina; alvo dos ISRS e da flibanserina |
| Freio | Opioides e endocanabinoides | Saciedade e refratariedade depois do orgasmo |
| Freio | Prolactina e cortisol | Inibem quando em níveis elevados |
| Freio (sem consenso) | Progesterona | Ação inibitória em alguns estudos |
Adaptado de FEBRASGO, 2022 [48], Goldstein et al., 2017 [1], e Pettigrew e Novick, 2021 [47].
A tabela explica a clínica. É por esse eixo que um inibidor seletivo da recaptação de serotonina apaga a libido, que a hiperprolactinemia derruba o desejo e que a flibanserina e a bremelanotida foram desenvolvidas. Os hormônios sexuais modulam o sistema inteiro, mas os níveis séricos se correlacionam mal com o desejo, e nenhuma diferença hormonal caracteriza a mulher com TDSH na pré-menopausa [1, 47].
O que acontece no corpo durante a excitação
A excitação tem um componente subjetivo, no cérebro, e um genital, que depende de sangue. Sinais parassimpáticos que descem pelo plexo sacral liberam acetilcolina, óxido nítrico e polipeptídeo intestinal vasoativo, que relaxam a musculatura lisa dos vasos [48]. O fluxo para as artérias do clitóris aumenta a pressão no tecido erétil, com tumescência da glande e ingurgitamento dos pequenos lábios. Na parede vaginal, o aumento da pressão capilar produz uma transudação de plasma através do epitélio: é isso que lubrifica; as glândulas de Bartholin acrescentam muco, e a vagina se alonga e se dilata. Ao mesmo tempo, o simpático acelera coração e respiração e provoca rubor e ereção dos mamilos. No orgasmo, contrações rítmicas do períneo; na resolução, a serotonina inibe a dopamina e a noradrenalina e traz relaxamento [48].
Explico isso nas aulas com uma frase: a excitação depende de vasodilatação. O estradiol mantém o trofismo de todas as camadas da mucosa e regula a síntese de óxido nítrico, e estradiol abaixo de 50 pg/mL se associa a secura vaginal [48]. A testosterona age nas duas pontas, como mostro no curso de terapia androgênica. Na vagina há receptores androgênicos na mucosa, no estroma, no músculo liso e no endotélio, além de aromatase e 5α-redutase; pelo receptor androgênico, a testosterona aumenta a secreção de mucina, relaxa o músculo liso pela via do óxido nítrico e da fosfodiesterase 5, aumenta a densidade de fibras nervosas e reduz a dor [55]. Dados pré-clínicos e clínicos apontam na mesma direção: ela participa da saúde vaginal e da resposta genital [55].

Figura 2. Como a testosterona participa do desejo e da excitação. No efeito central, repare na seta: estradiol mais testosterona melhorou o desejo mais do que estradiol sozinho, sinal de ação pelo receptor androgênico, e não só pela aromatização. No efeito periférico, as quatro linhas são a fisiologia da excitação genital: vasocongestão pélvica, relaxamento da musculatura lisa vascular por via adrenérgica e de óxido nítrico, lubrificação e densidade de fibras nervosas na vagina.
Fonte: Aula do Curso Terapia Androgênica Feminina, Escola HORMOFEM. Slide baseado em Khera, 2015 [49] e Rev Psiq Clín, 2006.
Por isso sem estrogênio a excitação genital falha, e sem excitação o desejo responsivo não aparece: o ciclo de Basson depende de um corpo capaz de responder.
Por que o desejo cai? As causas que precisam ser procuradas
Toda queixa de desejo baixo pede uma revisão biopsicossocial: saúde geral, humor, medicamentos, álcool, trauma, imagem corporal, relação, dor e estado hormonal [3]. Na live sobre libido, resumo os três grandes "matadores da libido": anticoncepcional, antidepressivo e estresse. A lista é mais longa, e a causa costuma ser múltipla.
A relação e o contexto vêm antes do hormônio
O estudo que melhor responde à pergunta "isso é hormônio?" acompanhou 438 australianas de 45 a 55 anos por oito anos. A resposta sexual foi prevista pela função sexual anterior, pela mudança de parceiro, pelos sentimentos em relação ao parceiro e pelo estradiol; a função prévia e a relação pesaram mais do que os hormônios [7].
Na Escola HORMOFEM, ensino isso com uma cena que se repete no consultório. A paciente diz que perdeu a libido e, na mesma consulta, conta que está esgotada ou que não suporta mais o parceiro. Não é falta de testosterona. Por isso pergunto pela relação, pelo estresse e pelo sono antes de pedir qualquer exame, e às vezes a busca pelo hormônio é a busca por uma explicação para um casamento que não vai bem. A orientação brasileira para o consultório lista o que pesa na relação longa: expectativas, intimidade emocional, comunicação, rotina e monotonia [43].
A transição menopausal tem efeito próprio. Na coorte SWAN, com 1.390 mulheres, a função sexual não mudou até 20 meses antes da última menstruação; daí em diante caiu 0,35 ponto por ano e continuou caindo, sem que secura, depressão ou ansiedade explicassem o declínio [8].
Depressão e antidepressivos
Sintomas depressivos e psicotrópicos se associam à disfunção sexual de forma independente [3, 5]. Numa metanálise de estudos que perguntaram ativamente, a disfunção sexual emergente com antidepressivos variou de 25,8% a 80,3%, com sertralina, venlafaxina, citalopram, paroxetina e fluoxetina entre os de maior impacto; bupropiona, mirtazapina e agomelatina não diferiram do placebo [10].
Contraceptivo hormonal
O anticoncepcional oral combinado reduz os androgênios por dois caminhos: eleva a SHBG e inibe a síntese ovariana e adrenal. Numa metanálise de 42 estudos com 1.495 mulheres, a testosterona livre caiu, em média, 61% [12].

Figura 3. Anticoncepcional oral combinado e testosterona livre, separados pela geração do progestagênio. Cada linha é um estudo, e o número é a razão entre a testosterona livre durante o uso e a de antes: 0,38 quer dizer 62% menos. Repare nos quatro losangos de subtotal: todos ficam longe da linha do 1, entre 0,34 e 0,42, e a diferença entre os subgrupos não foi significativa (P = 0,50). Nenhuma geração de progestagênio poupou a testosterona livre.
Fonte: Zimmerman Y et al. Hum Reprod Update. 2014;20(1):76-105 [12], recorte da Figura 7. Artigo de acesso aberto, licença CC BY-NC 3.0.
Queda de androgênio não é sinônimo de queda de desejo. Em 340 mulheres randomizadas para levonorgestrel com etinilestradiol ou placebo, a função sexual global foi semelhante, mas desejo, excitação e prazer pioraram com o anticoncepcional [13]. A troca de pílula melhorou a função sexual independentemente de o novo progestagênio ser androgênico ou não [14], e o implante e o SIU de levonorgestrel tiveram efeito neutro ou positivo [15]. Qualquer progestina pode mexer com a libido de uma mulher específica; o dienogeste é o exemplo que mais aparece nas minhas pacientes com endometriose. Diante de queixa nova depois de iniciar um método hormonal, troco o método e reavalio.
Síndrome geniturinária, dor e endometriose
Quem tem dor não tem prazer.
A síndrome geniturinária da menopausa reúne secura, ardor, menor lubrificação, dor na relação e queixas urinárias [16], e entre os sintomas está a própria diminuição da excitação, do orgasmo e do desejo [9]. Síndrome geniturinária e TDSH são as duas entidades mais relevantes da disfunção sexual na menopausa [38], coexistem com frequência e pedem exame físico dirigido para serem separadas [36]. Sem estradiol, a lubrificação falha, a mucosa fina fissura e a dor transforma o encontro sexual numa experiência a evitar. No modelo de Basson, é o circuito que se fecha ao contrário.
A dor não é exclusiva da pós-menopausa. Numa metanálise de 13 estudos, a endometriose se associou a escores menores em todos os domínios do FSFI e a 71% mais chance de disfunção sexual (OR 1,71; IC 95% 1,21 a 2,43) [17].
Hipoestrogenismo, ooforectomia, prolactina e tireoide
A insuficiência estrogênica da menopausa, da amenorreia hipotalâmica, da hiperprolactinemia ou dos inibidores de aromatase derruba o desejo junto com fogachos, sono e humor [3]. A ooforectomia bilateral derruba de forma abrupta a testosterona que o ovário pós-menopáusico continua produzindo [18], tema que discuti em testosterona em mulheres: o que os estudos realmente mostram. A hiperprolactinemia cursa com hipogonadismo e redução da libido [3, 19], e a doença tireoidiana aparece entre os fatores associados a problemas sexuais com sofrimento [4].
Tabela 2. Causas de desejo sexual baixo: o que perguntar e o que fazer.
| Causa | Pista na consulta | Primeiro passo |
|---|---|---|
| Relação e contexto | Conflito, falta de intimidade, parceiro com disfunção, sobrecarga | Nomear o problema, orientar e encaminhar para terapia de casal ou sexual |
| Depressão, ansiedade, sono ruim | PHQ-9 alterado, insônia, fadiga | Tratar o quadro de base; priorizar o sono |
| Antidepressivo | Queixa iniciou ou piorou depois do ISRS ou IRSN | Revisar dose, trocar ou associar bupropiona |
| Contraceptivo hormonal | Queixa nova depois de iniciar o método | Trocar o método e reavaliar |
| Síndrome geniturinária e dor | Secura, ardor, dispareunia, sangramento pós-coito | Exame ginecológico; lubrificante, hidratante, estrogênio vaginal |
| Endometriose, vaginismo, prolapso | Dor de profundidade, dor na penetração | Tratar a dor; fisioterapia pélvica |
| Hipoestrogenismo | Fogachos, amenorreia, inibidor de aromatase | Terapia hormonal quando indicada |
| Ooforectomia bilateral | Menopausa cirúrgica | Terapia hormonal e, se o TDSH persistir, testosterona |
| Hiperprolactinemia ou tireoide | Galactorreia, irregularidade menstrual, sintomas tireoidianos | Prolactina e TSH |
| Agonista de GLP-1 (hipótese) | Queixa nova depois de iniciar o tratamento | Perguntar antes e durante [37] |
Adaptado de Davis, 2024 [3], e Goldstein et al., 2017 [1].
Como avaliar no consultório?
Menos da metade das mulheres com dificuldade sexual que causa sofrimento procura ajuda [3], e o médico que não pergunta não fica sabendo. O processo de cuidado da ISSWSH recomenda abrir o assunto com uma frase que normaliza ("muitas mulheres nessa fase notam mudanças na vida sexual; isso acontece com você?") e seguir quatro passos: ouvir a história, nomear o problema, reconhecer o sofrimento e então avaliar e tratar ou encaminhar [20].
O Decreased Sexual Desire Screener (DSDS) tem cinco perguntas e foi validado para médicos que não são especialistas em sexualidade [21]:
- No passado, seu nível de desejo ou interesse sexual era bom e satisfatório?
- Houve diminuição do seu nível de desejo ou interesse sexual?
- Essa diminuição incomoda você?
- Você gostaria que seu desejo ou interesse sexual aumentasse?
- Que fatores podem estar contribuindo: cirurgia, depressão ou outra doença; medicamentos, drogas ou álcool; gravidez, parto recente ou menopausa; dor, menor excitação ou orgasmo; problemas sexuais do parceiro; insatisfação com a relação; estresse ou cansaço?
"Sim" às quatro primeiras e "não" a todos os fatores sugere TDSH generalizado adquirido [1]; na validação, o DSDS concordou com a entrevista de um especialista em 85,2% dos casos [21]. O Female Sexual Function Index (FSFI) mede seis domínios (desejo, excitação, lubrificação, orgasmo, satisfação e dor) e serve para mapear o problema e acompanhar a resposta [22].
O exame físico é guiado pela história: exame ginecológico diante de dor ou secura, exame das mamas se houver suspeita de galactorreia [3]. Exames laboratoriais não fazem o diagnóstico de TDSH; TSH e prolactina entram quando a clínica sugere doença endócrina [1]. A testosterona sérica só deve ser dosada como linha de base se for prescrita [3, 23]; nem o estradiol nem a testosterona séricos se correlacionam com a função sexual ou com o sucesso do tratamento [39]. Quando há fadiga junto, investigo também ferro e alterações metabólicas, porque nem tudo é testosterona.
Como tratar o desejo sexual baixo?
O tratamento é uma escada, e o processo de cuidado da ISSWSH a desenha passo a passo: primeiro educação e fatores modificáveis; só depois, para o TDSH que persiste, tratamento dirigido ao desejo, escolhido pelo estado menopausal [31].
Tabela 3. Processo de cuidado da ISSWSH para o TDSH, passo a passo.
| Passo | O que fazer | Para onde vai |
|---|---|---|
| 1. Perguntar | "Você tem vida sexual ativa? Há alguma preocupação sexual que queira discutir?" | Sem queixa: encerra. Outra queixa sexual: outro caminho. Desejo baixo: passo 2 |
| 2. Rastrear | DSDS e/ou história sexual | Desejo baixo ao longo da vida ou situacional: educação, aconselhamento, encaminhamento. TDSH generalizado adquirido: passo 3 |
| 3. Avaliar | Avaliação biopsicossocial de fatores modificáveis | Com fatores: educação e modificação. Sem fatores: educação |
| 4. Tratar o que persiste | TDSH sem fatores modificáveis remanescentes | Pré-menopausa: terapia sexual ou agentes de ação central. Pós-menopausa: terapia sexual, agentes de ação central ou terapia hormonal |
| 5. Reavaliar | Seguimento | Ajustar ou trocar a estratégia |
Adaptado de Clayton et al., 2018 [31]. Mulher com desejo baixo desde sempre e sem sofrimento pode se reconhecer assexual e não deve ser tratada.
A mesma lógica aparece num fluxograma para a menopausa que soma a síndrome geniturinária ao TDSH e mostra quando subir de degrau.

Figura 4. Fluxograma de tratamento da disfunção sexual na menopausa. Leia de cima para baixo: primeira linha é educação sexual, envolvimento do parceiro e correção de fatores modificáveis; sintomas leves ou contraindicação a hormônio vão para lubrificante, hidratante, fisioterapia pélvica, dilatadores e terapia sexual ou cognitivo-comportamental; sintomas moderados a graves sem resposta sobem para estrogênio local, prasterona vaginal, testosterona transdérmica e agentes de ação central. O laser aparece como opção off-label, mas a FDA alertou contra seu uso para a função sexual [3]. GSM: síndrome geniturinária; HSDD: TDSH; VVA: atrofia vulvovaginal; CEE/BZA: estrogênios conjugados com bazedoxifeno.
Reproduzido de Scavello I et al. Medicina (Kaunas). 2019;55(9):559 [50], Figura 1. Artigo de acesso aberto, licença CC BY 4.0.
Educação, terapia sexual e atenção plena
Explicar o modelo de Basson costuma ser o primeiro passo: tirar da paciente a expectativa de um desejo espontâneo que talvez nunca tenha sido o seu padrão reduz culpa e sofrimento. Num slide da live sobre libido deixo isso explícito: o tratamento é multifatorial, e os medicamentos sozinhos não resolvem [54]. A terapia sexual é o tratamento padrão do TDSH, e a terapia cognitivo-comportamental com atenção plena é a modalidade com melhor evidência [1].
Numa metanálise de 20 ensaios contra lista de espera, a intervenção psicológica teve efeito moderado (d = 0,58; IC 95% 0,40 a 0,77), com a melhor evidência justamente para o TDSH [24]. No ensaio de Brotto e Basson, com 117 mulheres, quatro sessões em grupo de atenção plena, terapia cognitiva e educação melhoraram desejo, excitação, lubrificação e satisfação, e o ganho no desejo acompanhou o aumento da atenção plena [51]. Em 2025, programas online com facilitadores não especialistas tiveram efeito grande (d > 0,90), mantido em seis meses [25].
Estilo de vida conta. No Look AHEAD, 28% das mulheres com disfunção sexual que receberam intervenção intensiva deixaram de preencher critérios em um ano, contra 11% no grupo controle [40]. No meu consultório, o primeiro passo diante de uma paciente que não dorme é fazê-la dormir; quando o sono volta, humor, energia e libido costumam melhorar juntos.
Tratar a causa
Com antidepressivo, reduzir a dose, trocar por fármaco de menor impacto ou associar bupropiona; na revisão Cochrane, bupropiona 150 mg duas vezes ao dia foi a estratégia mais promissora [11]. A bupropiona também melhorou a resposta sexual no TDSH da pré-menopausa [26], mas é uso off-label, com dados limitados [1]. Com contraceptivo, troca do método; com hiperprolactinemia ou tireoide, tratamento da causa [19]; com dor, tratamento da dor antes de qualquer medicamento para o desejo.
Estrogênio local, prasterona e terapia hormonal
Na síndrome geniturinária, o estrogênio vaginal em dose baixa melhora lubrificação, dor e função sexual [16]; é o primeiro passo hormonal para quem tem dor, e as dúvidas de segurança estão em estrogênio vaginal na síndrome geniturinária. Quando o desconforto é também vulvar, além do estrogênio vaginal oriento estriol por fora, na vulva, no clitóris e nos pequenos e grandes lábios. A prasterona vaginal (DHEA 6,5 mg por dia) é alternativa: em 12 semanas, num ensaio com 482 mulheres com dispareunia, melhorou os seis domínios do FSFI, desejo inclusive (+0,24 ponto sobre o placebo), sem mudar os esteroides séricos [52].
A terapia hormonal sistêmica não trata TDSH, mas trata o que derruba o desejo [3]. Na Cochrane de 2023, o estrogênio isolado provavelmente melhora um pouco a função sexual (diferença média padronizada de 0,60; IC 95% 0,16 a 1,04), sobretudo em mulheres sintomáticas ou no início da pós-menopausa; para a tibolona e os outros esteroides sintéticos, a evidência é de qualidade muito baixa [27].
A via importa. O estrogênio oral eleva a SHBG e reduz a testosterona livre, e a The Menopause Society registra que, com libido baixa, a via transdérmica pode ser preferível [28]. No KEEPS, o estradiol transdérmico melhorou de forma moderada a função sexual (2,6 pontos no FSFI), sobretudo lubrificação e dor, enquanto o estrogênio conjugado oral não diferiu do placebo [41]. Quando a libido faz parte da queixa, eu sempre prefiro a via transdérmica. E a regra que repito nas aulas vale aqui: antes de pensar em testosterona, a paciente precisa estar bem estrogenizada; sem estradiol adequado, a testosterona não responde.
Testosterona transdérmica na pós-menopausa
Persistindo o TDSH, a testosterona é o tratamento farmacológico com melhor evidência na pós-menopausa. O Consenso Global de 2019 a considera a única indicação baseada em evidência para testosterona na mulher, depois de avaliação biopsicossocial formal [23]. A metanálise que o sustenta, com 36 ensaios e 8.480 participantes, mostrou 0,85 evento sexual satisfatório a mais por mês e melhora de desejo, excitação, orgasmo, prazer e autoimagem, com menos sofrimento [29]. Repito nas aulas: são domínios da função sexual, não só desejo. No Brasil, um ensaio de 2026 com gel manipulado de 2 mg por dia em 47 mulheres levou a testosterona à faixa da pré-menopausa e melhorou numericamente todos os domínios do FSFI, mas, depois de ajuste, só o orgasmo diferiu do placebo; é um estudo pequeno [53].
O detalhe está em testosterona em mulheres: o que os estudos realmente mostram. Resumo a minha conduta: via transdérmica em dose fisiológica, cerca de um décimo da dose masculina [18]; começo com 3 mg/dia de testosterona no produto, numa faixa de 1 a 5 mg; adoto 20 a 80 ng/dL como convenção de trabalho para a testosterona total; e uso um teto de cerca de 100 ng/dL, acima do qual reduzo a dose. Testosterona total e SHBG antes de começar, nova dosagem entre 30 e 45 dias, primeira reavaliação clínica em 12 a 16 semanas; as diretrizes dão até seis meses para concluir que não houve benefício [18, 23]. Na receita, uso o CID de disfunção sexual (F52).
Se a testosterona chegou à faixa alvo e a libido não melhorou em dois a três meses, não era falta de testosterona: volto ao estresse, ao humor, aos medicamentos e à relação. Se mal subiu, a primeira hipótese é absorção.
Flibanserina e bremelanotida
São os dois únicos medicamentos aprovados pela FDA especificamente para TDSH, ambos para a pré-menopausa [3], e agem no controle duplo. São opções aprovadas fora do Brasil: até a data desta revisão, nenhum dos dois tem registro na ANVISA. A flibanserina (100 mg à noite) é agonista 5-HT1A e antagonista 5-HT2A e reduz o freio serotoninérgico [1]; em oito ensaios com 5.914 mulheres, acrescentou 0,49 evento satisfatório por mês, com mais tontura (risco relativo de 4,00), sonolência (3,97) e náusea (2,35), e evidência de qualidade muito baixa [30]. Exige cautela com álcool e é contraindicada com inibidores potentes do CYP3A4 [3]. Na pós-menopausa, no SNOWDROP, os eventos satisfatórios aumentaram 1,0 com flibanserina e 0,6 com placebo [42].
Evento sexual satisfatório a mais por mês com flibanserina, em relação ao placebo [30].
A bremelanotida (1,75 mg subcutânea antes da atividade sexual) é agonista de melanocortina, o acelerador. Nos ensaios RECONNECT, com 1.267 mulheres, aumentou o desejo do FSFI em 0,35 ponto, com náusea em cerca de 40% e sem aumento de eventos satisfatórios [3, 32]. Os dois efeitos precisam ser lidos contra o placebo: numa metanálise que mostro na live sobre libido, 67,7% do efeito observado nos ensaios foi atribuído ao placebo [33].
Tabela 4. Tratamentos do TDSH e da disfunção que o acompanha: para quem, efeito e eventos adversos.
| Tratamento | Para quem | Efeito em relação ao controle | Eventos adversos |
|---|---|---|---|
| Terapia sexual e TCC com atenção plena | Todas, primeira linha | d = 0,58 contra lista de espera [24]; melhora do desejo [51] | Nenhum relevante; acesso limitado |
| Estrogênio vaginal em dose baixa | Síndrome geniturinária com dor ou secura | Melhora lubrificação, dor e função sexual [16] | Corrimento, candidíase [3] |
| Prasterona vaginal 6,5 mg | Dispareunia da síndrome geniturinária | Seis domínios do FSFI; desejo +0,24 [52] | Corrimento local |
| Estrogênio sistêmico, de preferência transdérmico | Sintomas da menopausa | DMP 0,60 [27] | Os da terapia hormonal |
| Tibolona | Sintomas da pós-menopausa | Evidência muito baixa [27] | Os da tibolona |
| Testosterona transdérmica | TDSH na pós-menopausa | +0,85 evento satisfatório por mês [29] | Acne, pelos [29] |
| Flibanserina 100 mg à noite | TDSH na pré-menopausa (FDA; sem registro na ANVISA) | +0,49 evento por mês [30] | Tontura, sonolência, náusea, hipotensão com álcool |
| Bremelanotida 1,75 mg SC sob demanda | TDSH na pré-menopausa (FDA; sem registro na ANVISA) | Desejo +0,35 no FSFI [32] | Náusea, rubor, cefaleia |
| Bupropiona (off-label) | Disfunção por antidepressivo; TDSH | Dados limitados [11, 26] | Sem dados de segurança específicos no TDSH [1] |
Adaptado de Davis, 2024 [3], com dados das referências citadas.
O que não tem evidência
- Dosar testosterona para diagnosticar TDSH. Nenhum ponto de corte separa mulheres com e sem disfunção [23].
- Testosterona na pré-menopausa. Os dados não bastam para recomendar [23]; isso não prova que não funcione, mostra que faltam ensaios.
- Implantes, injetáveis e doses suprafisiológicas. Não são recomendados pelas diretrizes [23]. Na aula de implantes, explico o problema clínico: a dose alta dá um pico de bem-estar e, quando o nível cai, a paciente sente a queda e pede mais.
- DHEA oral para libido. Numa metanálise de 23 ensaios, não houve melhora significativa (diferença média padronizada de 0,35; IC 95% -0,02 a 0,73) [34]. Uso uma dose pequena de DHEA na terapia hormonal quando o SDHEA está muito baixo, sem consenso que a sustente, e não a apresento como tratamento do desejo.
- Inibidores da fosfodiesterase 5. Sem benefício em mulheres saudáveis com disfunção da excitação; não tratam o desejo [3].
- Laser vaginal para a função sexual. A FDA alertou contra o uso em 2018 [3].
Quando a conduta muda
- Ideação suicida, depressão maior ou transtorno bipolar: o quadro psiquiátrico passa à frente, com psiquiatra junto.
- História de abuso ou trauma: a avaliação precisa captar [3], e o cuidado passa por psicoterapia especializada.
- Dor de profundidade ou que não cede ao estrogênio local: investigar endometriose, adenomiose e causas pélvicas [17].
- Galactorreia, amenorreia ou irregularidade menstrual: prolactina e investigação do eixo [19].
- Desejo baixo desde sempre: o caminho é psicossocial, não hormonal [3].
- Contraindicação à terapia estrogênica: não é porta de entrada para testosterona; os ensaios excluíram mulheres de alto risco cardiometabólico [23].
- Câncer de mama hormônio-sensível: a testosterona pede cautela explícita [23], e o estrogênio vaginal entra por decisão compartilhada com o oncologista.
Em resumo
O desejo da mulher é muitas vezes responsivo, nasce durante a excitação e depende do saldo entre acelerador e freio no cérebro e de um corpo capaz de vasocongestão e lubrificação. Desejo baixo só é transtorno quando há sofrimento. Antes de qualquer medicamento, procure a causa: relação, humor, sono, antidepressivo, contraceptivo, dor, hipoestrogenismo, prolactina e tireoide. Terapia sexual, estrogênio local para quem tem dor, terapia hormonal transdérmica para quem tem sintomas e testosterona em dose fisiológica para o TDSH que persiste na pós-menopausa formam a escada com evidência. O resto ainda é hipótese, e a paciente merece saber disso.
O que muda no consultório
- 1Abra o assunto com uma frase que normaliza e aplique o DSDS; confirme sofrimento e duração antes de rotular.
- 2Pergunte pela relação, pelo estresse e pelo sono antes de pedir qualquer exame.
- 3Com queixa nova depois de iniciar ISRS ou contraceptivo, ajuste o medicamento ou troque o método e reavalie.
- 4Dor na relação pede exame ginecológico e estrogênio vaginal quando houver síndrome geniturinária.
- 5Na terapia hormonal de quem tem libido baixa, prefira a via transdérmica; a oral eleva a SHBG.
- 6Testosterona só para o TDSH que persiste na pós-menopausa, em dose fisiológica, com dosagem para evitar excesso, não para diagnosticar.
- 7TSH e prolactina só com indicação clínica; não há exame que diagnostique TDSH.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre desejo sexual baixo e TDSH?
O TDSH é a falta ou a perda de desejo espontâneo e responsivo por pelo menos seis meses, acompanhada de sofrimento pessoal. A mulher que tem pouco desejo e não se incomoda com isso não tem transtorno, mesmo que o parceiro se incomode.
Quais são as fases da resposta sexual feminina?
No modelo linear de Masters e Johnson, excitação, platô, orgasmo e resolução, com o desejo acrescentado por Kaplan antes da excitação. No modelo circular de Basson, a mulher pode partir da neutralidade, aceitar o estímulo por motivos de intimidade e sentir desejo durante a excitação. Desejo responsivo é fisiológico e não deve ser diagnosticado como disfunção.
Anticoncepcional diminui a libido?
Pode diminuir em algumas mulheres. O combinado reduz a testosterona livre e eleva a SHBG, e um ensaio randomizado mostrou piora dos domínios desejo, excitação e prazer, sem mudança da função sexual global. Trocar de método costuma melhorar, independentemente de o progestagênio ser androgênico ou não.
Antidepressivo pode causar perda do desejo sexual?
Sim, e é uma das causas mais comuns. Os ISRS e os IRSN têm as maiores taxas; bupropiona, mirtazapina e agomelatina não diferiram do placebo. Reduzir a dose, trocar o fármaco ou associar bupropiona são as opções, sempre com o psiquiatra quando o quadro de humor é grave.
Preciso dosar testosterona para diagnosticar TDSH?
Não. Nenhum ponto de corte de testosterona separa mulheres com e sem disfunção sexual. A dosagem serve como linha de base e para evitar exposição excessiva quando a testosterona é prescrita.
Estrogênio vaginal melhora o desejo?
Melhora a função sexual da mulher com síndrome geniturinária, porque trata a secura e a dor que derrubam o desejo. Não é tratamento de TDSH sem síndrome geniturinária, mas é o primeiro passo hormonal para quem tem dor na relação.
Flibanserina e bremelanotida funcionam?
Têm efeito modesto. A flibanserina acrescenta, em média, meio evento sexual satisfatório por mês, com tontura, sonolência e náusea; a bremelanotida melhora um pouco o escore de desejo, com náusea frequente. Ambas foram aprovadas pela FDA para mulheres na pré-menopausa; no Brasil, até a data desta revisão, nenhuma das duas tem registro na ANVISA.
Medicamento para emagrecer, como os agonistas de GLP-1, pode baixar a libido?
É uma hipótese, ainda sem confirmação. A perda de peso costuma melhorar a função sexual, mas há relatos de caso e dados em animais sugerindo que esses medicamentos podem reduzir desejo e excitação por ação central. Vale perguntar pela função sexual antes e durante o tratamento.
DHEA oral aumenta a libido feminina?
Não de forma significativa. Numa metanálise de ensaios randomizados, a DHEA oral não melhorou a libido, e ela não entrou nas diretrizes como tratamento do TDSH.
Quando encaminhar?
Diante de depressão grave ou ideação suicida, história de trauma sexual, conflito conjugal importante, desejo baixo desde sempre ou dor que não cede ao tratamento local. Terapeuta sexual, psicólogo, psiquiatra e fisioterapeuta pélvico fazem parte do cuidado.
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Como citar este artigo
Jacobsen L. Desejo sexual baixo na mulher (TDSH): causas, avaliação e tratamento. Blog Científico HORMOFEM [Internet]. 2026 nov 8. Disponível em: https://hormofem.com.br/blog/desejo-sexual-baixo-mulher-tdsh/

Dr. Leonardo Jacobsen
Ginecologia e Obstetrícia · CRM/SC 20930 · RQE 17351
Ginecologista, professor e pesquisador em endocrinologia feminina. Fundador da Escola HORMOFEM e autor do livro Terapia Hormonal Feminina.
Conteúdo educativo destinado a profissionais de saúde. Não substitui a avaliação individual nem estabelece conduta para um caso específico.
