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Exames hormonais femininos: o que pedir, quando colher e como interpretar

FSH, estradiol, progesterona, prolactina, AMH e testosterona: quando pedir, em que dia colher, qual método usar e quando o exame não ajuda.

Dr. Leonardo Jacobsen

Por Dr. Leonardo Jacobsen

Ginecologia e ObstetríciaCRM/SC 20930 · RQE 17351

8 nov 202630 min de leitura33 referências

Neste artigo
  1. Exame hormonal feminino responde a qual pergunta?
  2. Em que dia do ciclo colher cada exame?
  3. Imunoensaio ou espectrometria de massa: faz diferença?
  4. O que pedir e como ler cada exame?
  5. Quando o exame hormonal não ajuda?
  6. Contraceptivo e terapia hormonal: o que eles mudam nos resultados?
  7. Quais são os erros de interpretação mais comuns?
  8. Quando o exame muda a conduta?
  9. Em resumo

Exame hormonal feminino só tem valor quando responde a uma pergunta clínica. O mesmo FSH, estradiol ou progesterona pode ser normal num dia do ciclo e anormal em outro, vir em ng/dL quando se espera pg/mL ou estar suprimido por um contraceptivo. Por isso, diante de "meus hormônios estão bons?", a resposta honesta começa por outra pergunta: bons para responder o quê?

O exame hormonal feminino não é um retrato da mulher. É uma fotografia de um eixo que pulsa, que muda a cada dia do ciclo e que responde a contraceptivo, a terapia hormonal, a peso, a estresse e até ao método do laboratório. Pedido sem pergunta clínica e lido sem contexto, ele produz diagnóstico errado com aparência de precisão. Pedido na hora certa, pelo método certo, ele decide condutas. Este artigo organiza o que pedir, quando colher, como ler e, principalmente, quando o exame não ajuda.

Imagem ilustrativa: Exames hormonais
Foto: Nguyễn Hiệp, no Unsplash

Exame hormonal feminino responde a qual pergunta?

Todo exame hormonal precisa nascer de uma pergunta clínica. Ela está ovulando? A reserva ovariana é compatível com a idade? Há excesso de androgênio, e de onde ele vem? Existe insuficiência ovariana prematura? A terapia hormonal está sendo absorvida? Cada pergunta define o exame, o dia da coleta e o método.

Na primeira consulta, eu peço um perfil hormonal amplo como linha de base, junto com o metabólico, a tireoide, as vitaminas e os exames de rastreio. Faço isso para conhecer a paciente, não para diagnosticar por número. As diretrizes não exigem esse painel para quem está bem; a decisão, para mim e para elas, continua sendo clínica.

Exame hormonal é uma foto de um filme. Quem conta a história é o ciclo, e a clínica é soberana.

Dr. Leonardo Jacobsen

O livro HORMOFEM resume esse cuidado num conceito-chave: o ciclo menstrual é complexo e dinâmico, os valores flutuam dentro do próprio ciclo e entre um ciclo e outro, e a maioria das hipóteses diagnósticas e das indicações terapêuticas se apoia mais na clínica do que no exame [1]. Não estamos tratando números impressos no papel.

Em que dia do ciclo colher cada exame?

O dia da coleta não é burocracia. Ele muda o valor de referência e, às vezes, inverte a interpretação.

Início da fase folicular: FSH, LH e estradiol

Para avaliar o eixo e a reserva ovariana, eu peço FSH, LH e estradiol do 3º ao 5º dia do ciclo, contando o primeiro dia de sangramento como dia 1. Nessa janela se esperam FSH abaixo de 10 mUI/mL e estradiol entre 20 e 80 pg/mL [1]. É a fase de menor estradiol e de menor interferência do folículo dominante.

Valores séricos de estradiol esperados ao longo de um ciclo de 28 dias: 20 a 80 pg/mL do 1º ao 5º dia, 100 a 200 na fase mesofolicular, 300 a 400 no pico pré-ovulatório, 60 a 80 na

Figura 1. Valores séricos de estradiol esperados ao longo de um ciclo de 28 dias: 20 a 80 pg/mL do 1º ao 5º dia, 100 a 200 na fase mesofolicular, 300 a 400 no pico pré-ovulatório, 60 a 80 na lútea inicial e 100 a 200 na mesolútea. Um mesmo número pode ser normal num dia e anormal em outro.

Fonte: Jacobsen L. Hormofem: terapia hormonal feminina. 4ª ed. São Paulo: Ed. do Autor; 2025. ISBN 978-65-01-71472-1 [1]. Ilustração do livro, com a atualização da 7ª edição (no prelo).

Meio da fase lútea: progesterona, e por que o "dia 21" engana

A progesterona confirma ovulação quando é colhida no pico da função do corpo lúteo, 6 a 8 dias depois da ovulação [2]. O famoso "dia 21" só acerta esse alvo num ciclo de 28 dias com ovulação no 14º. Se a mulher ovula no 10º dia, o momento certo é o 17º ou 18º; se ovula no 17º, é o 24º ou 25º. A regra prática que funciona para qualquer ciclo regular é colher cerca de 7 dias antes da menstruação esperada: num ciclo de 35 dias, isso cai perto do 28º dia; num de 24, perto do 17º. Num banco de mais de 612 mil ciclos ovulatórios, só 13% tinham 28 dias; a fase folicular foi de 10,4 dias nos ciclos de 15 a 20 dias e de 26,8 dias nos de 36 a 50, enquanto a lútea ficou em média em 12,4 dias [26]. Quem varia é a fase folicular, e por isso a conta se faz para trás, a partir da menstruação.

Um valor acima de 3 ng/mL é presuntivo de ovulação [2]. O resto exige cautela. A secreção do corpo lúteo acompanha os pulsos de LH, e a progesterona pode variar até oito vezes em 90 minutos; em ciclos ovulatórios, valores abaixo de 10 ng/mL aparecem em 31,3% das dosagens [2]. Por isso nenhuma concentração isolada define função lútea normal, e o diagnóstico de deficiência de fase lútea continua sendo clínico, pela duração da fase lútea de 10 dias ou menos [2].

Qualquer dia: AMH, prolactina, TSH, SHBG e DHEA-S

O AMH é produzido pelos folículos pré-antrais de forma praticamente constante, e colhê-lo num dia fixo não traz vantagem sobre a coleta aleatória [3]. Prolactina, TSH, SHBG e DHEA-S também dispensam data no ciclo. Na mulher em amenorreia ou com ciclos muito irregulares, o FSH para investigar insuficiência ovariana prematura também não precisa ser datado [4].

Androgênios e 17-OH-progesterona: manhã e fase folicular

A testosterona tem ritmo circadiano, é mais alta de manhã e varia cerca de 25% em torno da média; na mulher que ovula, faz um pico no meio do ciclo [5]. Por isso as referências são padronizadas para coleta de manhã, entre o 4º e o 10º dia do ciclo [5]. A 17-OH-progesterona segue a mesma lógica: de manhã, na fase folicular, ou em qualquer dia na mulher sem ciclos [5], porque a progesterona lútea eleva o valor e cria falso positivo.

Na prática, não faz sentido mandar a paciente ao laboratório três vezes no mesmo mês. Eu colho androgênios e 17-OH-progesterona de manhã, junto com FSH, LH e estradiol, no início do ciclo, e deixo a progesterona para quando a pergunta for ovulação.

Imunoensaio ou espectrometria de massa: faz diferença?

Faz, e muita, nos valores baixos. A maioria dos laboratórios dosa esteroides por imunoensaio, que tem viés variável entre plataformas e reatividade cruzada com metabólitos conjugados e não conjugados; por isso, resultados de laboratórios diferentes não devem ser comparados [6]. A Endocrine Society reconhece que imunoensaios e espectrometria de massa servem bem para a faixa da reprodução e da infertilidade, mas que as concentrações muito baixas de estradiol, como as da pós-menopausa, não são medidas com exatidão nem precisão pela rotina [7].

Com a testosterona feminina o problema é maior. O consenso global classifica os ensaios diretos de testosterona total e livre como muito pouco confiáveis na faixa feminina (grau A), enquanto a cromatografia líquida ou gasosa acoplada à espectrometria de massa em tandem mede com exatidão e reprodutibilidade [8]. Os ensaios diretos de testosterona livre também não são confiáveis; o caminho é calcular a fração livre a partir da testosterona total e da SHBG ou usar diálise de equilíbrio [5, 9]. A diretriz internacional de SOP de 2023 foi na mesma direção: LC-MS/MS no lugar do imunoensaio direto para a testosterona total e, quando necessário, para androstenediona e DHEA-S, com a fração livre por cálculo, diálise de equilíbrio ou precipitação [27].

O exemplo mais didático vem da progesterona. Depois de uma cápsula oral de 100 mg, o radioimunoensaio registrou pico médio de 19,4 ng/mL, enquanto a espectrometria de massa, no mesmo estudo, mostrou pico de 1,5 a 2,2 ng/mL, de volta à linha de base em 4 a 6 horas [1, 10]. A diferença são os metabólitos da progesterona oral, que o imunoensaio lê como se fossem progesterona. Os autores concluíram que o radioimunoensaio direto não serve depois de progesterona oral, porque dá valores cerca de oito vezes mais altos [10].

Progesterona sérica após dose única de progesterona micronizada oral (100 mg) e de gel vaginal (90 mg), medida por radioimunoensaio (RIA, linhas tracejadas) e por espectrometria de

Figura 2. Progesterona sérica após dose única de progesterona micronizada oral (100 mg) e de gel vaginal (90 mg), medida por radioimunoensaio (RIA, linhas tracejadas) e por espectrometria de massa (LC-MS, linhas contínuas). Na via oral, o RIA superestima o pico várias vezes; na vaginal, com menos metabolismo de primeira passagem, os dois métodos quase coincidem.

Adaptado de: Jacobsen L. Hormofem: terapia hormonal feminina. 4ª ed. São Paulo: Ed. do Autor; 2025. ISBN 978-65-01-71472-1 [1], com dados de Levine e Watson, 2000 [10].

A armadilha da unidade

A mesma confusão acontece com a 17-OH-progesterona (ng/mL ou ng/dL) e com a testosterona (ng/dL ou nmol/L; 1 nmol/L corresponde a cerca de 29 ng/dL).

O que pedir e como ler cada exame?

Tabela 1. Exames hormonais femininos: quando pedir, quando colher e a armadilha mais comum.

Exame Quando pedir Quando colher Armadilha
FSH Reserva ovariana; suspeita de insuficiência ovariana prematura; menopausa antes dos 45 anos; usuária de progestagênio isolado acima de 50 anos 3º ao 5º dia; em amenorreia, qualquer dia Na perimenopausa flutua de um ciclo para outro; suprimido por contraceptivo combinado e por terapia hormonal
LH Junto com o FSH, para ler o eixo 3º ao 5º dia Pouco valor isolado; pico ovulatório confunde se colhido fora da janela
Estradiol Reserva (com o FSH); amenorreia; dúvida de absorção na terapia transdérmica 3º ao 5º dia; na terapia, horário padronizado Unidade (pg/mL x ng/dL); imunoensaio impreciso em valores baixos; sem valor com estradiol oral ou combinado
Progesterona Confirmar ovulação; suspeita de deficiência lútea 6 a 8 dias após a ovulação (7 dias antes da menstruação esperada) "Dia 21" fixo; secreção pulsátil; imunoensaio superestima com progesterona oral
Prolactina Amenorreia, oligomenorreia, galactorreia, infertilidade Qualquer dia, sem estresse de punção Medicamentos, hipotireoidismo, macroprolactina, efeito gancho
TSH Irregularidade menstrual, infertilidade, insuficiência ovariana, SOP Qualquer dia Tratar distúrbio menstrual sem afastar tireoide
AMH Reserva ovariana; planejamento reprodutivo; dúvida diagnóstica de insuficiência ovariana Qualquer dia Lido como teste de fertilidade; reduzido por contraceptivo; elevado na SOP
Testosterona total Hiperandrogenismo; antes e durante terapia androgênica Manhã, 4º ao 10º dia Imunoensaio direto não confiável na faixa feminina; não diagnostica desejo sexual baixo
SHBG Junto com a testosterona, para calcular a fração livre Qualquer dia Sobe com estrogênio oral e combinado; cai com obesidade e resistência à insulina
DHEA-S Hiperandrogenismo, suspeita de origem adrenal Qualquer dia Valor muito alto ou virilização rápida pedem investigação de tumor
Androstenediona Hiperandrogenismo com testosterona normal Manhã, fase folicular Origem mista, ovariana e adrenal; não localiza a fonte sozinha
17-OH-progesterona Diferencial de SOP com hiperplasia adrenal congênita não clássica Manhã, fase folicular Coleta na fase lútea dá falso positivo; unidade

Adaptado de Jacobsen, 2025 [1]; ASRM, 2026 [2]; Martin et al., 2018 [5]; ESHRE, 2024 [4]; Teede et al., 2018 e 2023 [11, 27]; Tal e Seifer, 2017 [3].

FSH e LH

O FSH basal elevado tem alta especificidade e baixa sensibilidade para baixa reserva ovariana: quando vem alto, a reserva é baixa; quando vem normal, não exclui nada [3]. Ele precisa ser lido com o estradiol do mesmo dia. Um FSH de 7 com estradiol de 38 no 3º dia é tranquilizador; o mesmo FSH com estradiol de 108 não é, porque o estradiol alto de um folículo recrutado cedo suprime o FSH e mascara a reserva baixa [3]. FSH e LH baixos ou normais com estradiol baixo, em mulher sem ciclos, apontam para causa central, e não ovariana. O LH também separa as duas causas mais comuns de oligo e amenorreia: vem baixo na amenorreia hipotalâmica funcional e alto na SOP [31].

O que separa a amenorreia hipotalâmica funcional (FHA, à esquerda) da síndrome dos ovários policísticos (PCOS, à direita) na mulher com oligo ou amenorreia secundária. Olhe as linh

Figura 3. O que separa a amenorreia hipotalâmica funcional (FHA, à esquerda) da síndrome dos ovários policísticos (PCOS, à direita) na mulher com oligo ou amenorreia secundária. Olhe as linhas do LH e dos androgênios: baixos na hipotalâmica, altos na SOP. Na hipotalâmica, o IMC costuma ficar abaixo de 24 kg/m², o endométrio é fino e a densidade óssea cai; na SOP, o IMC é qualquer um, a insulina sobe e o endométrio é espesso. Embaixo, os dois exames que mais ajudam: SHBG normal na hipotalâmica e baixa na SOP; AMH discretamente alto na primeira e muito alto na segunda. A faixa cinza lista marcadores ainda em estudo.

Reproduzido de Phylactou M, Clarke SA, et al., Clin Endocrinol, 2021 [31], Figura 2, sob licença CC BY-NC (rótulos originais em inglês).

Na suspeita de insuficiência ovariana prematura, a diretriz de 2024 aceita um único FSH acima de 25 UI/L em mulher com amenorreia ou ciclos irregulares há pelo menos 4 meses, repetido em 4 a 6 semanas só se houver dúvida; estradiol abaixo de 50 pg/mL com FSH elevado indica hipoestrogenismo [4].

Fluxograma da diretriz ESHRE de 2024 para insuficiência ovariana prematura (POI, na sigla em inglês). Olhe o quadro do alto: o diagnóstico exige ciclo alterado há pelo menos 4 mese

Figura 4. Fluxograma da diretriz ESHRE de 2024 para insuficiência ovariana prematura (POI, na sigla em inglês). Olhe o quadro do alto: o diagnóstico exige ciclo alterado há pelo menos 4 meses e FSH acima de 25 UI/L, e a ooforectomia bilateral antes dos 40 anos entra direto. Afastada a causa iatrogênica (quimioterapia, radioterapia, cirurgia ovariana), a investigação segue para cariótipo e pré-mutação do FMR1 (X frágil), com aconselhamento e consentimento, e depois para autoimunidade (anticorpo anti-21-hidroxilase e TSH); sem achado, a insuficiência é idiopática.

Fonte: Panay N, et al. Evidence-based guideline: premature ovarian insufficiency. Hum Reprod Open. 2024;2024(4):hoae065 [4], Figura 2. Acesso aberto, licença CC BY 4.0; legenda traduzida.

Estradiol

No início da fase folicular, o estradiol esperado fica entre 20 e 80 pg/mL [1]. Valor alto nessa janela é sinal de folículo recrutado antes da hora, típico da reserva baixa e dos ciclos LOOP da perimenopausa, em que um novo folículo cresce ainda dentro da fase lútea anterior [12]. Já atendi paciente com 351 pg/mL no 5º dia: ela estava ovulando, e a próxima menstruação veio com pouco mais de 20 dias.

Progesterona

Serve para uma pergunta: houve ovulação? Acima de 3 ng/mL na fase mesolútea, sim; um valor isolado baixo não fecha deficiência lútea [1, 2].

Prolactina e TSH

Uma única prolactina acima do limite superior confirma hiperprolactinemia, desde que a coleta não tenha sido feita sob estresse excessivo de punção; testes dinâmicos não são recomendados [13]. Antes de pensar em prolactinoma, afaste medicamentos que bloqueiam a dopamina, hipotireoidismo, insuficiência renal e gravidez. Na paciente assintomática, investigue macroprolactina; num adenoma grande com prolactina só discretamente elevada, peça diluição da amostra por causa do efeito gancho [13]. TSH e prolactina entram na exclusão de outras causas sempre que se investiga SOP [11], e o TSH faz parte da avaliação inicial da insuficiência ovariana prematura [4].

AMH

É o marcador mais precoce e sensível de reserva ovariana, e não é teste de fertilidade: prevê resposta à estimulação, não gravidez [3]. Na minha prática, uso como régua de cabeça os limites inferiores esperados para a idade: cerca de 2,5 ng/mL aos 30 anos, 1,5 aos 35 e 1 aos 40 [3]. A SOP eleva o AMH, e a supressão ovariana o reduz [3]. Em usuárias de contraceptivo oral, o AMH foi 19% menor e a contagem de folículos antrais 18% menor do que em não usuárias, depois de ajuste para idade [14].

O dado que mais desmonta o uso do AMH como teste de fertilidade é prospectivo. Em 750 mulheres de 30 a 44 anos, sem história de infertilidade e tentando engravidar havia até 3 meses, as que tinham AMH abaixo de 0,7 ng/mL engravidaram tanto quanto as de AMH normal: 65% contra 62% em 6 ciclos e 84% contra 75% em 12 [28]. A ASRM resume: os marcadores de reserva predizem quantos óvulos a estimulação vai render, mas são maus preditores do potencial reprodutivo independentemente da idade [29].

Antimülleriano não é fator de infertilidade. Ele prediz resposta ovariana e reserva, não a chance de gravidez.

Dr. Leonardo Jacobsen

No Brasil, um estudo do Hospital das Clínicas da USP estabeleceu valores de referência em 133 mulheres saudáveis: o AMH caiu com a idade e variou muito de uma mulher para outra; nessa amostra pequena, o contraceptivo não alterou o resultado [30], ao contrário do estudo dinamarquês com 887 mulheres. Na SOP, a diretriz de 2023 passou a aceitar o AMH no lugar do ultrassom para definir morfologia policística em adultas, nunca como teste isolado nem em adolescentes, e com pontos de corte do próprio ensaio [27].

A alternativa barata é a contagem de folículos antrais: ultrassom transvaginal no início do ciclo, somando os folículos de 2 a 10 mm dos dois ovários [3]. Na minha prática, espero cerca de 12 folículos aos 30 anos, 10 aos 35, 8 aos 40 e 6 aos 45, e considero reserva diminuída uma contagem abaixo de 7, um AMH abaixo de 1 ng/mL ou um FSH acima de 10 do 3º ao 5º dia. O ponto fraco é o operador: obesidade e vários ultrassonografistas comprometem a precisão [3].

Testosterona total e SHBG

A testosterona total, de preferência por espectrometria de massa, é o exame central do hiperandrogenismo; quando ela é normal e a clínica sugere excesso, calcule a testosterona livre com a SHBG [5]. A faixa que eu uso na mulher é de 20 a 80 ng/dL de testosterona total, a que ensino como fisiológica na aula de testosterona da pós-graduação, sempre lida contra o método e a faixa do laboratório. Com espectrometria de massa, em mulheres de 20 a 80 anos, a faixa de referência foi de 0,35 a 1,97 nmol/L, o que equivale a cerca de 10 a 57 ng/dL [15]. Para terapia androgênica, a dosagem tem outra função, que é evitar exposição suprafisiológica, e nunca diagnosticar desejo sexual baixo [8]. Uma revisão clínica de 2026 põe o teto em número: durante o tratamento, a testosterona deve ficar na faixa feminina normal, que depende do laboratório, em geral sem passar de 90 a 100 ng/dL (cerca de 3,1 a 3,5 nmol/L), para reduzir o risco de efeitos androgênicos [33]. Detalhei isso no artigo sobre testosterona em mulheres.

A SHBG é marcador de estado metabólico. Sobe com estrogênio oral, contraceptivo combinado, gravidez e hipertireoidismo; cai com obesidade, resistência à insulina, hipotireoidismo e uso de androgênios [9]. O alvo nunca é a SHBG em si, e sim a causa que a alterou.

DHEA-S, androstenediona e 17-OH-progesterona

O DHEA-S é o marcador da produção adrenal de androgênios [5]. A androstenediona, precursora imediata da testosterona, vem do ovário e da adrenal; ela aumenta a chance de detectar hiperandrogenemia quando a testosterona é normal, mas serve mais para excluir outras causas do que para localizar a fonte [5, 11]. Testosterona na faixa masculina ou DHEA-S acima de 700 µg/dL sugerem tumor [5].

A 17-OH-progesterona separa SOP de hiperplasia adrenal congênita não clássica por deficiência de 21-hidroxilase. Colhida de manhã, na fase folicular, um valor acima de 170 a 200 ng/dL tem cerca de 95% de sensibilidade e 90% de especificidade; o diagnóstico definitivo exige 1.000 a 1.500 ng/dL, basal ou após estímulo com cosintropina [5]. Valor limítrofe, eu repito antes de qualquer conduta; confirmado, encaminho o teste de estímulo ao endocrinologista. Cuidado com a unidade: 1 ng/mL equivale a 100 ng/dL, então 2 ng/mL e 200 ng/dL são o mesmo resultado.

Quando o exame hormonal não ajuda?

FSH para diagnosticar perimenopausa

Esse é o erro mais frequente. A perimenopausa se diagnostica pelo ciclo, não pelo sangue: diferença persistente de 7 dias ou mais entre ciclos consecutivos marca a transição inicial, e 60 dias ou mais de amenorreia, a tardia [16]. No SWAN, o FSH começou a subir 6,1 anos antes da última menstruação e acelerou cerca de 2 anos antes, enquanto o estradiol médio só começou a cair 2 anos antes [17].

6,1 anos

Antes da última menstruação, o FSH já começa a subir; o estradiol médio só cai nos 2 anos finais (SWAN) [17].

Dose o FSH de uma perimenopáusica no 3º dia de vários ciclos e você verá 18, depois 20, depois 6, depois 12. Não é erro de laboratório; é a flutuação da inibina e da resposta folicular. Uma paciente de 44 anos com FSH de 18 pode menstruar até os 50. E a média esconde mulheres muito diferentes: o SWAN identificou quatro trajetórias de estradiol, e em cerca de 45% delas o estradiol subiu antes de cair [1, 18]. Se a paciente tem sintoma vasomotor, FSH alto e ainda menstrua todo mês, ela não precisa de estradiol por causa do número, como discuto ao diferenciar TDPM e perimenopausa.

As quatro trajetórias do estradiol em torno da última menstruação no SWAN: aumento e declínio acentuado (31,5%), estável (28,6%), declínio lento (26,9%) e aumento e declínio lento

Figura 5. As quatro trajetórias do estradiol em torno da última menstruação no SWAN: aumento e declínio acentuado (31,5%), estável (28,6%), declínio lento (26,9%) e aumento e declínio lento (13,1%). Em cerca de 45% das mulheres o estradiol sobe antes de cair, e nenhuma dosagem isolada diz em que ponto da curva a paciente está.

Fonte: Jacobsen L. Hormofem: terapia hormonal feminina. 4ª ed. São Paulo: Ed. do Autor; 2025. ISBN 978-65-01-71472-1 [1]. Ilustração do livro, adaptada de Tepper et al., 2012 [18].

O FSH só entra no meu raciocínio quando o ciclo deixa de ser régua: na histerectomizada, na usuária de SIU de levonorgestrel e na mulher com menos de 45 anos e amenorreia, em quem preciso afastar insuficiência ovariana e outras causas. Na usuária de contraceptivo combinado, ele não serve: o etinilestradiol mantém FSH, LH e estradiol suprimidos mesmo na semana de pausa [19]. Na usuária de progestagênio isolado acima de 50 anos em amenorreia, um FSH acima de 30 UI/L permite suspender a contracepção depois de mais um ano; abaixo disso, mantém-se o método e repete-se em um ano [19].

AMH para prever menopausa

O AMH prevê melhor do que o FSH, mas não o bastante para uso de rotina. No SWAN, com AMH abaixo de 10 pg/mL (0,01 ng/mL), a chance de a última menstruação ocorrer nos 12 meses seguintes foi de 51% antes dos 48 anos e de 79% a partir dos 51; com AMH acima de 100 pg/mL, a chance de não ocorrer foi de 97% e 90% [20]. É informação útil para aconselhar, não para indicar tratamento. A diretriz de insuficiência ovariana aceita o AMH para confirmar o diagnóstico quando o FSH é inconclusivo, mas não para prever quem vai ter a doença [4].

Painel hormonal lido como diagnóstico

Pedir um perfil amplo é diferente de diagnosticar por ele. Não existe valor padrão da relação estradiol/progesterona que indique normalidade ou predominância estrogênica [1], e nenhum ponto de corte de androgênio separa mulheres com e sem disfunção sexual [8]. Predominância estrogênica, desejo baixo, "hormônios desregulados": são diagnósticos clínicos. O laudo entra para excluir o que muda conduta, como hiperprolactinemia, tireoidopatia, insuficiência ovariana e hiperandrogenismo de causa tumoral.

Saliva e urina

Dosagem hormonal na saliva ou na urina para ajustar dose não é confiável e não é recomendada [21]. A Endocrine Society aponta a variabilidade entre ensaios e dentro do mesmo ensaio, o fluxo salivar que muda com hidratação e alimentação e a farmacocinética imprevisível dos manipulados [22]. Para testosterona, a diretriz de hirsutismo também recomenda não usar saliva nem urina [5].

Dosagem para guiar a terapia hormonal da menopausa

As diretrizes concordam em três pontos: não há nível de estradiol recomendado, a resposta se avalia pelos sintomas e o exame não deve ser rotina [1, 6]. A dosagem é inútil na usuária de estradiol oral, porque a estrona domina a circulação e o estradiol sérico não reflete a exposição [6, 22], e na usuária de contraceptivo combinado [6]. Na perimenopausa, não há como separar o estradiol endógeno do exógeno [6].

Isso não quer dizer que o exame nunca ajude. Com estradiol transdérmico, a variação entre mulheres na mesma dose é grande: numa coorte de 1.508 mulheres, 24,84% das que usavam a maior dose licenciada tinham estradiol abaixo de 200 pmol/L, cerca de 55 pg/mL [23]. A revisão de 2026 reconhece o papel da dosagem em sintomas que persistem após iniciar ou subir a dose, no uso da terapia só para osso, na mulher com menos de 45 anos e na dúvida entre falta e excesso; o nível ideal depende do tecido, do desfecho e do método [24]. Se ela aplica o gel no braço, a coleta deve ser do outro lado, ou com aplicação na coxa na véspera, porque a contaminação da punção produz valores absurdos [24].

24,84%

Das mulheres na maior dose licenciada de estradiol transdérmico tinham estradiol abaixo de cerca de 55 pg/mL [23].

A Tabela 2 mostra o estradiol médio que cada dose entrega nos estudos de registro. A média engana: o desvio-padrão chega a 60% dela nas doses altas [24].

Tabela 2. Estradiol sérico médio no estado de equilíbrio, por formulação e dose de estradiol transdérmico, em mulheres saudáveis na pós-menopausa (imunoensaio direto).

Formulação Dose de estradiol Estradiol médio (pg/mL)
Adesivo, troca 2 vezes por semana 25 µg/dia 26
37,5 µg/dia 34
50 µg/dia 47 a 57
75 µg/dia 72 a 74
100 µg/dia 89 a 104
Gel 0,06% (0,75 mg por dose do dosador) 0,75 mg/dia (1 dose) 28
1,5 mg/dia (2 doses) 68
3 mg/dia (4 doses) 103
Gel 0,1% em sachê 0,25 mg/dia 10
0,5 mg/dia 21
1 mg/dia 31
Spray transdérmico 1,53 mg/dia (1 jato) 20
3,06 mg/dia (2 jatos) 31
4,59 mg/dia (3 jatos) 31

Adaptado de Glynne e Simon, 2026 [24]. Nos adesivos, a faixa reúne dois produtos. Médias acima de 55 pg/mL só aparecem a partir de 50 µg/dia de adesivo ou de 2 doses de gel 0,06%.

No Método HORMOFEM, a clínica decide. Na paciente que melhora, mantenho e reavalio. Na assintomática, que não me dá resposta clínica para ler, e na que responde parcialmente ou falha, eu doso e uso como alvo estradiol de 60 a 150 pg/mL, como está na atualização da 7ª edição do livro [1]. É opinião de especialista, fundamentada na hipótese do limiar de estrogênio e nos estudos de farmacocinética, e não recomendação de diretriz.

Método HORMOFEM de reavaliação da terapia hormonal da menopausa: a avaliação clínica vem primeiro; o estradiol sérico entra na resposta parcial, na falha terapêutica e na paciente

Figura 6. Método HORMOFEM de reavaliação da terapia hormonal da menopausa: a avaliação clínica vem primeiro; o estradiol sérico entra na resposta parcial, na falha terapêutica e na paciente assintomática, com alvo de 60 a 150 pg/mL. Opinião de especialista, não diretriz.

Fonte: Jacobsen L. Hormofem: terapia hormonal feminina. 4ª ed. São Paulo: Ed. do Autor; 2025. ISBN 978-65-01-71472-1 [1], com a atualização da 7ª edição (no prelo).

Com a progesterona da terapia hormonal, o raciocínio é outro. A dose se escolhe pelos estudos de proteção endometrial e pela dose de estradiol, não pelo exame. A dosagem pela manhã pode mostrar absorção, mas um valor baixo não muda conduta, porque a progesterona oral tem pico e vale e não existe valor-alvo definido [1]. Para a pergunta endometrial, o exame certo é outro, como discuto no artigo sobre o teste de progesterona.

Contraceptivo e terapia hormonal: o que eles mudam nos resultados?

Tabela 3. Efeito do contraceptivo e da terapia hormonal sobre os exames hormonais.

Situação O que muda no laboratório Como ler
Contraceptivo combinado com etinilestradiol FSH, LH e estradiol suprimidos, inclusive na pausa; SHBG sobe cerca de 99 nmol/L; testosterona livre cai 61%; AMH cerca de 19% menor Não usar FSH para definir menopausa; avaliar androgênios só após 3 meses sem o método; ler AMH sabendo que vem subestimado
Progestagênio isolado e SIU de levonorgestrel O SIU mantém o ciclo ovariano; FSH interpretável Acima de 50 anos em amenorreia, FSH acima de 30 UI/L orienta a suspensão
Estradiol oral na terapia hormonal Estrona e sulfato de estrona muito altos; SHBG sobe Estradiol sérico não reflete a exposição; testosterona livre cai
Estradiol transdérmico Estradiol interpretável; FSH moderadamente suprimido Dosar só em situação selecionada; cuidado com contaminação do gel
Progesterona micronizada oral Imunoensaio lê metabólitos como progesterona Valor alto não garante, valor baixo pela manhã não condena
Testosterona em tratamento Nível depende de absorção individual Dosar para evitar nível suprafisiológico, não para tratar até um alvo

Adaptado de FSRH, 2023 [19]; Zimmerman et al., 2014 [25]; Birch Petersen et al., 2015 [14]; Teede et al., 2018 [11]; Stuenkel et al., 2015 [22]; Levine e Watson, 2000 [10]; Davis et al., 2019 [8].

O contraceptivo combinado é o maior fator de confusão do consultório. Ele reduz a produção ovariana e adrenal de androgênios e eleva a SHBG; numa metanálise de 42 estudos, a testosterona total caiu 0,49 nmol/L, a livre caiu 61% e a SHBG subiu 99 nmol/L, e a testosterona livre caiu o dobro da total por causa da SHBG [25]. Por isso a diretriz de SOP afirma que não é possível avaliar hiperandrogenismo bioquímico com segurança em quem usa contracepção hormonal; quando a dosagem é importante, recomenda suspender o método por três meses ou mais, com contracepção não hormonal nesse período, e a versão de 2023 manteve a recomendação [11, 27].

Quais são os erros de interpretação mais comuns?

  • Diagnosticar perimenopausa ou menopausa pelo FSH na mulher que ainda menstrua, ou em quem usa combinado [16, 19].
  • Chamar de deficiência lútea uma progesterona colhida no dia errado, ou um valor isolado abaixo de 10 ng/mL num ciclo ovulatório [2].
  • Ler estradiol em ng/dL como se fosse pg/mL e concluir que um implante não liberou hormônio.
  • Tratar testosterona de imunoensaio direto como número exato na faixa feminina [8].
  • Dar a infertilidade como explicada pelo AMH baixo, ou tranquilizar a paciente pelo AMH normal [3].
  • Dosar estradiol em quem usa estradiol oral e subir a dose pelo número [22].
  • Mudar a dose da terapia hormonal por oscilação dentro da faixa terapêutica, quando o método e o horário da coleta já mudam o resultado [24].
  • Esquecer a anamnese farmacológica diante de prolactina alta [13].

Quando o exame muda a conduta?

Alguns resultados tiram o caso do consultório de rotina e pedem ação rápida:

  • Testosterona na faixa masculina, DHEA-S acima de 700 µg/dL ou virilização de evolução rápida: investigar tumor ovariano ou adrenal, com imagem [5].
  • FSH acima de 25 UI/L em mulher com menos de 40 anos e ciclos alterados há 4 meses: insuficiência ovariana prematura, com investigação de causa e reposição hormonal [4].
  • Prolactina elevada com cefaleia ou alteração visual, ou sem causa farmacológica: ressonância de sela [13].
  • 17-OH-progesterona acima do ponto de corte: encaminhar para teste de estímulo e aconselhamento genético [5].
  • Amenorreia em idade reprodutiva: beta-hCG antes de qualquer outro exame [5].

Afastada a gravidez, a ASRM lê o painel da amenorreia secundária por padrões, e muitas vezes poucos exames bastam (Tabela 4) [32].

Tabela 4. Amenorreia secundária (sem menstruação há mais de 3 meses com ciclos antes regulares, ou há mais de 6 meses com ciclos antes irregulares) e beta-hCG negativo: padrão do painel, hipótese e próximo passo.

Padrão laboratorial e de ultrassom Hipótese Próximo passo
FSH e LH altos, estradiol baixo, AMH e contagem de folículos antrais baixos, endométrio abaixo de 5 mm Insuficiência ovariana prematura Investigar a insuficiência ovariana
FSH, LH e estradiol normais, contagem de folículos normal, endométrio abaixo de 5 mm, sem sangramento após progestagênio, história de manipulação uterina Sinéquias uterinas Histerossonografia ou histeroscopia
FSH baixo ou normal, LH e estradiol baixos, contagem de folículos normal, endométrio abaixo de 5 mm Hipogonadismo hipogonadotrófico (considerar uso de hormônio exógeno) Ressonância de crânio
FSH normal, estradiol baixo, prolactina alta, TSH normal Hiperprolactinemia Repetir a prolactina; se seguir alta, ressonância de hipófise (sobretudo com prolactina acima de 100 ng/mL, cefaleia ou alteração visual) e pesquisa de macroprolactina
FSH e estradiol normais, TSH alterado, prolactina normal Doença tireoidiana Avaliar e tratar a tireoide
FSH e estradiol normais, LH normal ou no limite superior, AMH e contagem de folículos normais ou altos, TSH e prolactina normais SOP, se houver hiperandrogenismo clínico ou bioquímico e os critérios forem cumpridos; se não, anovulação idiopática Aplicar os critérios diagnósticos de SOP

Adaptado de ASRM, 2024 [32], Figura 2. No fluxograma original, LH, AMH, ultrassom pélvico (espessura endometrial e contagem de folículos antrais) e teste do progestagênio são opcionais.

Se o sangramento é o problema, a investigação muda de eixo, como mostro no artigo sobre sangramento intenso na perimenopausa.

Em resumo

Exame hormonal feminino responde perguntas, não descreve a mulher. A pergunta define o exame, o dia de coleta e o método: FSH, LH e estradiol no início da fase folicular, progesterona 7 dias antes da menstruação, androgênios de manhã e AMH em qualquer dia. FSH não diagnostica perimenopausa, AMH não mede fertilidade, saliva não guia dose, e o estradiol da terapia hormonal se dosa em situações selecionadas, nunca na via oral. Contraceptivo combinado e estrogênio oral mudam quase todos os resultados. No fim, o laudo confirma ou exclui; quem decide é a clínica.

O que muda no consultório

  1. 1Escreva a pergunta clínica ao lado de cada exame antes de pedir.
  2. 2Peça FSH, LH, estradiol e androgênios de manhã, do 3º ao 5º dia, e a progesterona 7 dias antes da menstruação esperada.
  3. 3Na perimenopausa, posicione a paciente pelo ciclo; FSH só quando o ciclo deixa de ser régua.
  4. 4Prefira espectrometria de massa para testosterona feminina; com imunoensaio, use o número só para excluir excesso.
  5. 5Em usuária de combinado, não use FSH para menopausa e suspenda o método por 3 meses antes de avaliar androgênios.
  6. 6Na terapia hormonal, não dose estradiol na via oral; na transdérmica, dose quando a resposta é parcial, falha ou a paciente é assintomática.

Perguntas frequentes

Em que dia do ciclo devo pedir FSH e estradiol?

Do 3º ao 5º dia do ciclo, contando o primeiro dia de sangramento como dia 1. Nessa janela se esperam FSH abaixo de 10 mUI/mL e estradiol entre 20 e 80 pg/mL. Em mulher em amenorreia, o FSH pode ser colhido em qualquer dia.

A progesterona tem de ser colhida no dia 21?

Só num ciclo de 28 dias com ovulação no 14º. O alvo é a fase mesolútea, 6 a 8 dias após a ovulação, o que na prática significa cerca de 7 dias antes da menstruação esperada. Num ciclo de 35 dias, isso cai perto do 28º dia.

FSH alto confirma que a paciente está na perimenopausa?

Não. O FSH começa a subir anos antes da última menstruação e flutua de um ciclo para outro na transição. O estadiamento se faz pelo padrão menstrual: variação persistente de 7 dias entre ciclos na fase inicial e 60 dias de amenorreia na tardia.

Preciso suspender o anticoncepcional para dosar hormônios?

Depende do exame. O combinado suprime FSH, LH e estradiol mesmo na pausa, eleva a SHBG e reduz a testosterona livre; para avaliar androgênios, a diretriz de SOP recomenda suspender por 3 meses ou mais. Prolactina e TSH podem ser dosados em uso do método.

AMH baixo significa que a mulher não vai engravidar?

Não. O AMH prevê a resposta à estimulação ovariana e a reserva, não a chance de gravidez espontânea: num estudo prospectivo, mulheres de 30 a 44 anos com AMH abaixo de 0,7 ng/mL engravidaram tanto quanto as de AMH normal. Ele deve ser lido contra o esperado para a idade e vem subestimado em quem usa contraceptivo.

Imunoensaio ou espectrometria de massa para testosterona?

Espectrometria de massa, sempre que disponível. Os ensaios diretos de testosterona total e livre são pouco confiáveis na faixa feminina. Na falta dela, o imunoensaio serve para excluir valor basal alto e nível suprafisiológico durante o tratamento.

Dosagem hormonal na saliva é confiável?

Não para ajustar dose. A variabilidade do ensaio e do fluxo salivar torna o resultado imprevisível, e as sociedades de menopausa e de endocrinologia não recomendam o método.

Devo dosar estradiol em quem usa terapia hormonal?

Não de rotina, e nunca na via oral, em que a estrona domina a circulação. Na via transdérmica, a dosagem ajuda quando os sintomas persistem, na paciente assintomática, na menopausa antes dos 45 anos e quando a terapia é só para osso.

Qual a faixa normal de testosterona total na mulher?

Depende do método e do laboratório. O Dr. Leonardo Jacobsen usa 20 a 80 ng/dL; com espectrometria de massa, a faixa descrita em mulheres de 20 a 80 anos foi de cerca de 10 a 57 ng/dL. Em tratamento, uma revisão de 2026 recomenda, em geral, não passar de 90 a 100 ng/dL. O valor não diagnostica desejo sexual baixo.

Referências

  1. 1Jacobsen L. Hormofem: terapia hormonal feminina. 4ª ed. São Paulo: Ed. do Autor; 2025. ISBN 978-65-01-71472-1.
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Como citar este artigo

Jacobsen L. Exames hormonais femininos: o que pedir, quando colher e como interpretar. Blog Científico HORMOFEM [Internet]. 2026 nov 8. Disponível em: https://hormofem.com.br/blog/exames-hormonais-femininos/

Dr. Leonardo Jacobsen

Ginecologia e Obstetrícia · CRM/SC 20930 · RQE 17351

Ginecologista, professor e pesquisador em endocrinologia feminina. Fundador da Escola HORMOFEM e autor do livro Terapia Hormonal Feminina.

Conteúdo educativo destinado a profissionais de saúde. Não substitui a avaliação individual nem estabelece conduta para um caso específico.