O AMH conta folículos, não prevê gravidez. Reserva ovariana é quantidade de oócitos: o AMH prevê quantos a estimulação vai render e ajuda a estimar a aproximação da menopausa, mas, em mulheres de 30 a 44 anos sem infertilidade, AMH baixo e AMH normal deram a mesma chance de conceber [8]. A qualidade do oócito continua acompanhando a idade [9].
O exame virou check-up e assunto de rede social, e com ele veio uma leitura distorcida, que transforma um marcador de quantidade em sentença de fertilidade. Este texto mostra como ler o AMH contra a idade, o que altera o número, o que suplementos e hormônios fazem e o que o congelamento de óvulos pode prometer.
O que é reserva ovariana?
Reserva ovariana é o número de oócitos que ainda restam no ovário, ou seja, quantidade [1]. Não é qualidade. Os marcadores de reserva estimam quantos folículos existem, mas não dizem se aqueles oócitos vão gerar um embrião cromossomicamente normal; para qualidade, o melhor marcador continua sendo a idade [2, 3].
A perda é contínua desde a vida intrauterina. A mulher nasce com cerca de 2 milhões de folículos primordiais, chega à menarca com cerca de 400 mil e, no fim dos 30 anos, tem por volta de 25 mil [3]. A maior parte se perde por atresia, e não por ovulação: em toda a vida reprodutiva, ela ovula algumas centenas de vezes. O ritmo de perda acelera em meados dos 30 anos [3], e o declínio é irreversível.
Como se mede a reserva ovariana?
São três ferramentas na prática: o hormônio antimülleriano (AMH), a contagem de folículos antrais (CFA) e o par FSH e estradiol no início do ciclo. Nenhuma é perfeita, e cada uma erra de um jeito.
AMH
O AMH é produzido pelas células da granulosa dos folículos pré-antrais e antrais pequenos, que ainda não dependem das gonadotrofinas. Funciona como freio do recrutamento: limita a saída de folículos primordiais do estoque e reduz a sensibilidade dos folículos ao FSH [3]. Por isso acompanha o tamanho do estoque e pode ser colhido em qualquer dia do ciclo, já que medir num dia fixo não traz vantagem sobre a coleta aleatória [3]. Entre os testes de reserva, é o mais precoce e o mais sensível [3]. A Figura 1 mostra a origem: a expressão é máxima no folículo antral pequeno e some quando o folículo passa a depender do FSH [40].

Figura 1. Onde nasce o AMH. (A) A expressão do hormônio (curva vermelha) sobe do folículo primordial ao secundário, chega ao máximo no antral pequeno e despenca no pré-ovulatório, quando o folículo já foi selecionado pelo FSH. (B) Com a idade, encolhe o grupo de folículos em crescimento, a reserva ovariana funcional, e o AMH sérico cai junto até ficar indetectável na menopausa. Rótulos em inglês: primordial, secundário (secondary), antral pequeno (small antral) e pré-ovulatório (pre-ovulatory).
Reproduzido de Moolhuijsen LME, Visser JA. J Clin Endocrinol Metab. 2020;105(11):3361-3373 [40], Figura 1. Licença CC BY 4.0.
Varia pouco no ciclo, mas varia: numa metanálise de 11 estudos com 733 mulheres de ciclos regulares, o AMH veio cerca de 11,5% mais alto na fase folicular do que na lútea (Figura 2) [41]. A diferença é pequena e pesa sobretudo no valor limítrofe [41].

Figura 2. AMH na fase folicular contra a fase lútea em 11 estudos (diferença média padronizada). Cada linha é um estudo; o losango preto embaixo é o resultado combinado, 0,11 (IC 95% 0,01 a 0,22), à direita do zero, ou seja, AMH um pouco maior na fase folicular (follicular) do que na lútea (luteal). Repare que quase todos os estudos isolados cruzam o zero e que a heterogeneidade é nula (I² = 0%): a diferença é real, mas pequena.
Reproduzido de Khodavirdilou R, Pournaghi M, Rastgar Rezaei Y, et al. J Ovarian Res. 2022;15(1):78 [41], Figura 4a. Licença CC BY 4.0.
O ponto fraco é o laboratório. Os ensaios não são padronizados internacionalmente, e as gerações mais novas de kits dão valores de 30% a 40% mais altos do que as tabelas antigas de referência [3]. Compare o AMH sempre com o mesmo método, e desconfie de "queda" entre dois laboratórios diferentes.
Contagem de folículos antrais
A CFA soma, nos dois ovários, os folículos de 2 a 10 mm vistos à ultrassonografia transvaginal no início do ciclo, do 2º ao 4º dia [3]. É barata, dá o resultado na hora e tem acurácia parecida com a do AMH para prever resposta à estimulação [3]. As limitações são de execução: precisa de data no ciclo, depende do treinamento de quem examina e perde precisão na paciente com sobrepeso ou obesidade [3].
FSH e estradiol do 3º ao 5º dia
O FSH basal mede a reserva de forma indireta: menos folículos produzem menos inibina B e estradiol, e o FSH sobe. FSH alto tem alta especificidade e baixa sensibilidade: quando vem alto, a reserva é baixa; quando vem normal, não exclui nada [3]. A ESHRE, na atualização de 2025, recomenda AMH ou CFA para prever resposta baixa ou alta à estimulação e não recomenda FSH, estradiol, inibina B nem idade para esse fim [32].
Quando peço o FSH, nunca o leio sem o estradiol do mesmo dia (Figura 3). Um FSH de 7 com estradiol de 38 pg/mL no 3º dia é tranquilizador. O mesmo FSH com estradiol de 108 não é: o folículo foi recrutado cedo, o estradiol alto já suprimiu o FSH e mascarou a reserva baixa [3]. No início da fase folicular, espero FSH abaixo de 10 e estradiol entre 20 e 80 pg/mL [4, 5]. O raciocínio de coleta está detalhado no pilar de exames hormonais femininos.

Figura 3. Dois resultados com o mesmo FSH de 7 mUI/mL no 3º dia do ciclo. À esquerda, estradiol de 38 pg/mL: reserva normal. À direita, estradiol de 108 pg/mL: reserva diminuída, porque o estradiol alto do recrutamento precoce segurou o FSH no valor "normal". É o caso discordante mais comum no consultório.
Fonte: Aula Reserva Ovariana na Prática e Preservação de Fertilidade, Pós-graduação HORMOFEM (Módulo 11), slide 12; raciocínio de Tal e Seifer, 2017 [3].
Tabela 1. Os três marcadores de reserva ovariana, lado a lado.
| Característica | AMH | Contagem de folículos antrais | FSH e estradiol basais |
|---|---|---|---|
| O que mede | Folículos pré-antrais e antrais pequenos (medida direta) | Folículos de 2 a 10 mm (medida direta) | Retroalimentação do eixo (medida indireta) |
| Quando colher | Qualquer dia | 2º ao 4º dia do ciclo | 3º ao 5º dia do ciclo |
| Ponto forte | Mais precoce e mais sensível; prevê má resposta e hiper-resposta | Barata, resultado imediato | Valor alto confirma reserva baixa |
| Ponto fraco | Ensaio sem padronização; cai com contraceptivo; sobe na SOP | Depende do examinador; pior na obesidade | Baixa sensibilidade; varia entre ciclos; exige eixo livre |
| Reserva adequada | Acima de 1 ng/mL | 12 ou mais | FSH abaixo de 10 UI/L, estradiol abaixo de 80 pg/mL |
| Recomendado pela ESHRE para prever resposta | Sim | Sim | Não |
| Prevê gravidez ou nascido vivo | Não | Não | Não |
Adaptado de Tal e Seifer, 2017 [3], Santoro e Polotsky, 2025 [5], e ESHRE, 2025 [32].
Como interpretar o AMH pela idade?
O AMH só tem significado contra o esperado para a idade. Ele cai fisiologicamente, e o mesmo número que é ótimo aos 40 é preocupante aos 28. Na minha prática, uso de cabeça os limites inferiores propostos por Tal e Seifer: cerca de 2,5 ng/mL aos 30 anos, 1,5 aos 35 e 1 aos 40 (e 3,0 aos 25, 0,5 aos 45) [3]. Quando quero o percentil, consulto o nomograma de Almog, feito com 3.871 mulheres inférteis sem ovários policísticos em 15 centros (Tabela 2) [51]: a mediana cai de 2,2 aos 25 anos para 1,3 aos 40, e a distância entre os percentis 10 e 90 é enorme em qualquer idade.
Tabela 2. Percentis do AMH sérico (ng/mL) por idade em mulheres inférteis sem ovários policísticos.
| Idade | Percentil 10 | Percentil 25 | Mediana | Percentil 90 |
|---|---|---|---|---|
| 25 anos | 0,70 | 1,25 | 2,22 | 5,56 |
| 30 anos | 0,56 | 1,11 | 2,12 | 5,80 |
| 35 anos | 0,39 | 0,84 | 1,73 | 5,16 |
| 38 anos | 0,30 | 0,70 | 1,49 | 4,68 |
| 40 anos | 0,24 | 0,58 | 1,29 | 4,18 |
| 42 anos | 0,17 | 0,44 | 1,00 | 3,32 |
| 44 anos | 0,10 | 0,27 | 0,63 | 2,15 |
Adaptado de Almog et al., 2011 [51], Tabela 1 (transcrita na aula Reserva Ovariana na Prática, Pós-graduação HORMOFEM, slide 25). Ensaios de geração anterior; os kits atuais tendem a dar valores mais altos [3].
Na prática, a régua funciona assim. A mulher de 36 anos com AMH de 1,8 tem reserva compatível com a idade. A de 35 com AMH de 0,8 tem reserva baixa para a idade, porque eu esperaria pelo menos 1,5. E a de 28 anos com mãe que teve insuficiência ovariana prematura e AMH de 1,5 está abaixo do esperado para ela, embora um AMH de 1,5 costume render boa captação de oócitos numa estimulação. Baixo para a idade não é o mesmo que baixo para responder, e é essa distinção que orienta a conversa sobre congelamento de óvulos.

Figura 4. AMH sérico do nascimento à menopausa em 3.260 dosagens (triângulos), com a curva do modelo em vermelho (eixo vertical em escala logarítmica). O pico médio ocorre aos 24,5 anos, e a partir daí a curva só desce. Repare na dispersão: a idade explica só 34% da variação do AMH, e mulheres da mesma idade podem ter valores muito diferentes.
Fonte: Kelsey TW, Wright P, Nelson SM, Anderson RA, Wallace WH. PLoS One. 2011;6(7):e22024 [6]. Figura 1 do artigo original, reproduzida sob licença Creative Commons Attribution (CC BY).
Para prever resposta à estimulação, o raciocínio independe da idade. Na minha prática, considero sinal de reserva diminuída AMH abaixo de 1 ng/mL, CFA abaixo de 7 e FSH acima de 10 no 3º ao 5º dia; com AMH muito baixo, abaixo de 0,5, os centros de reprodução costumam discutir doação de oócitos, porque a estimulação exige doses altas e rende pouco. No outro extremo, valores altos sinalizam risco de hiper-resposta: nos estudos, cortes entre 3,36 e 5,0 ng/mL tiveram sensibilidade de 53% a 90% para prever hiperestímulo [3]. Esse é o terreno do especialista em reprodução, que usa o AMH para escolher protocolo e dose [1].
O que o AMH prediz?
Resposta à estimulação ovariana
É a indicação mais sólida. Numa metanálise de 28 estudos, o AMH teve área sob a curva de 0,78 para prever resposta ruim à estimulação, e ele também prevê o hiperestímulo [3]. A ASRM define os marcadores de reserva exatamente assim: bons preditores do número de oócitos captados após estimulação controlada [1].
A aproximação da menopausa
O AMH indetectável sinaliza que a última menstruação deve ocorrer nos próximos cinco anos [4]. No SWAN, com AMH abaixo de 0,01 ng/mL, a chance de a última menstruação ocorrer nos 12 meses seguintes foi de 51% antes dos 48 anos e de 79% a partir dos 51; com AMH acima de 0,1 ng/mL, a chance de ela não ocorrer nesse prazo foi de 97% e 90% [7]. É informação útil para aconselhar a mulher na transição, mas não marca a data da menopausa com precisão e não substitui o padrão menstrual no estadiamento [4].
O que o AMH não prediz?
A chance de gravidez espontânea
AMH baixo não é diagnóstico de infertilidade, e AMH normal não é garantia de fertilidade.
No estudo que fechou essa questão (JAMA, 2017), Steiner e colaboradores acompanharam 750 mulheres de 30 a 44 anos, sem história de infertilidade, que tentavam engravidar havia até três meses [8]. Depois de ajuste para idade e outros fatores, as mulheres com AMH baixo (abaixo de 0,7 ng/mL) tiveram probabilidade de conceber em 6 ciclos de 65%, contra 62% nas de AMH normal; em 12 ciclos, 84% contra 75%, sem diferença significativa [8]. Para os autores, esses achados não sustentam o uso de FSH ou AMH para avaliar a fertilidade natural nessa população [8]. O seguimento da mesma coorte, mais de três anos depois, confirmou: reserva diminuída não se associou a menos nascidos vivos, a mais diagnóstico de infertilidade nem a menor fecundabilidade [33].
Concepção em 6 ciclos nas mulheres com AMH abaixo de 0,7 ng/mL, contra 62% nas de AMH normal (Steiner, JAMA 2017) [8].
A biologia explica: a mulher ovula um oócito por ciclo e precisa de um folículo saudável, não de um estoque grande. Mesmo na reprodução assistida, onde a quantidade importa mais, o AMH prevê mal a gravidez e o nascido vivo, com áreas sob a curva de 0,63 e 0,61 [3], e a ESHRE recomenda não usar nenhum marcador basal, AMH incluído, para prever gravidez ou nascido vivo [32].
Na minha prática vejo isso com frequência: mulheres com AMH praticamente indetectável que engravidaram espontaneamente, e mulheres com AMH alto que não engravidavam porque o problema estava na trompa ou no sêmen. Quando alguém diz que não engravida "porque o AMH está baixo", a investigação ainda não começou.
A qualidade dos oócitos
A qualidade acompanha a idade, não o AMH. Em 15.169 biópsias de blastocisto, a aneuploidia foi mínima entre 26 e 30 anos e subiu de forma previsível depois disso; a chance de não ter nenhum embrião euploide no ciclo foi de 2% a 6% entre 26 e 37 anos, de 33% aos 42 e de 53% aos 44 [9]. Uma mulher de 41 anos com AMH de 3 tem muitos folículos, mas os oócitos têm 41 anos.
O que altera o AMH?
Antes de concluir que a reserva caiu, confira o que pode estar mexendo no número [3].
Contraceptivos e bloqueio hormonal
A supressão ovariana reduz o AMH e a CFA: em usuárias de pílula, o AMH foi 19% menor e a CFA 18% menor do que em não usuárias [10]. O tamanho da queda depende do método (Tabela 3), e na maior série, com 27.125 mulheres, o DIU de cobre foi o único método sem diferença [34]. A queda é funcional e reversível: depois de suspender um combinado usado por anos, AMH e CFA subiram e se estabilizaram em dois meses [12].
Tabela 3. Quanto o AMH vem mais baixo em cada contraceptivo, comparado com mulheres sem método hormonal.
| Método | Hariton, 2021 (27.125 mulheres) | Landersoe, 2020 (coorte dinamarquesa) |
|---|---|---|
| Combinado oral | 24% menor | 31% menor |
| Anel vaginal | 22% menor | Sem diferença significativa |
| Implante | 23% menor | Não avaliado |
| Pílula de progestagênio isolado | 15% menor | 36% menor |
| SIU de levonorgestrel | 7% menor | 17% menor, sem significância |
| DIU de cobre | Sem diferença | Não avaliado à parte |
Adaptado de Hariton et al., 2021 [34], e Landersoe et al., 2020 [11].
Síndrome dos ovários policísticos
A SOP eleva o AMH, porque há mais folículos antrais pequenos, e a diretriz internacional de 2023 aceita o AMH elevado como alternativa ao ultrassom para caracterizar a morfologia policística no adulto [13]. Por isso, AMH alto na mulher com ciclos irregulares é pista de SOP, não sinal de "fertilidade de sobra"; o tema está no pilar sobre síndrome dos ovários policísticos.
Vitamina D
Vitamina D baixa se associa a AMH mais baixo [3]. A metanálise de Moridi e colaboradores reuniu 18 estudos observacionais, com resultados discrepantes, e 6 de intervenção: a suplementação aumentou o AMH em mulheres ovulatórias sem SOP e reduziu o AMH nas mulheres com SOP [14]. Na minha prática, corrijo a vitamina D baixa antes de repetir o AMH de quem vai para estimulação, e já vi o número subir alguns décimos em três meses; é melhora funcional, não reserva nova.
Tabagismo
O tabagismo atual reduz o AMH, enquanto o tabagismo passado não mostrou esse efeito [3]. O impacto vai além do exame: a ASRM revisa os efeitos do tabaco sobre a concepção, a dinâmica folicular e a reprodução assistida [15]. Parar de fumar é medida barata e ao alcance da paciente.
Cirurgia ovariana e endometrioma
A endometriose reduz a reserva, e a cirurgia do endometrioma reduz mais. Na metanálise de Raffi, a cistectomia derrubou o AMH em média 1,13 ng/mL [16]. Numa metanálise mais recente, só com estudos prospectivos (14 estudos, 650 mulheres), o AMH caiu de 35% a 54% depois da cistectomia, a queda persistia de 9 a 18 meses depois, e a CFA não mudou [35]. A perda é maior na cirurgia bilateral e na reoperação, e por isso o AMH, e não a CFA, é o marcador para aconselhar antes da cirurgia [36]. A ESHRE recomenda não operar endometrioma rotineiramente antes da reprodução assistida para melhorar a taxa de nascidos vivos, porque não há benefício e a cirurgia tende a prejudicar a reserva; a cirurgia pode ser considerada pela dor ou para dar acesso aos folículos, pesando o risco para a reserva [17].
Uma das maiores iatrogenias que vejo é operar o ovário de uma mulher sem filhos sem antes dosar a reserva. AMH antes de qualquer cirurgia ovariana é regra no meu consultório, e o tratamento clínico da doença está no pilar de endometriose.
[3]; o asterisco nos anticoncepcio" loading="lazy" />Figura 5. Fatores que antecipam ou atrasam a idade da menopausa. Vários deles, como tabagismo, endometriose e ooforectomia unilateral, também reduzem o AMH [3]; o asterisco nos anticoncepcionais indica que não há consenso sobre o efeito na idade da menopausa.
Fonte: Jacobsen L. Hormofem: terapia hormonal feminina. 4ª ed. São Paulo: Ed. do Autor; 2025. p. 139. ISBN 978-65-01-71472-1 [4]. Tabela do livro, adaptada de Ceylan e Özerdoğan, 2015.
Outros fatores
Também reduzem o AMH a quimioterapia, a mutação do BRCA1, a pré-mutação do FMR1, doenças sistêmicas como lúpus e doença de Crohn e a gestação em curso; o tumor de células da granulosa o eleva [3].
Quem deve dosar a reserva ovariana?
Aqui há uma diferença entre a diretriz e a minha prática, e vale deixá-la clara. A ASRM recomenda que os testes de reserva não sejam usados como rastreamento em mulheres sem critério de infertilidade, e sim como complemento da avaliação de quem já é infértil [2]. A ESHRE vai na mesma linha: em mulher com ciclos regulares, o teste de reserva não é necessário para achar a causa da infertilidade nem para prever a concepção espontânea em 6 a 12 meses [37]. O motivo é o estudo de Steiner: num rastreamento, o AMH baixo assusta mulheres que vão engravidar sem ajuda [8].
Eu uso o exame com outro objetivo, o de planejamento reprodutivo, deixando claro para a paciente que ele não mede a chance de engravidar. Peço AMH nestas situações:
Mulheres com familiar de primeiro grau com menopausa precoce têm de 6 a 12 vezes mais chance de ter menopausa precoce [4], e é nesse grupo que o AMH baixo para a idade muda a conversa. O resultado não define se ela vai engravidar. Define quanto tempo ela tem para decidir e se o congelamento de óvulos entra na pauta.
Quanto a fertilidade cai com a idade?
O número que a mulher precisa ouvir não é o AMH. É a idade, traduzida em probabilidades absolutas. A fecundidade começa a cair por volta dos 32 anos e cai mais rápido depois dos 37 [18]. Num modelo de simulação, entre mulheres que começam a tentar engravidar, 75% terão uma concepção que termina em nascido vivo em um ano se começarem aos 30, 66% aos 35 e 44% aos 40; em quatro anos, as taxas sobem para 91%, 84% e 64% [19]. E a reprodução assistida compensa só metade dos nascimentos perdidos ao adiar a tentativa dos 30 para os 35 anos [19].
Mulheres que começam a tentar aos 40 anos e têm nascido vivo em até um ano, contra 75% aos 30 (modelo de Leridon) [19].
Na população geral, cerca de 80% dos casais engravidam nos primeiros seis meses de tentativa [20]. E a idade pesa também depois do teste positivo: num registro norueguês de 421.201 gestações, o risco de aborto foi mínimo entre 25 e 29 anos, cerca de 10%, e chegou a 53% a partir dos 45 [21].

Figura 6. Risco de aborto espontâneo (eixo vertical, proporção das gestações) pela idade materna (eixo horizontal) em 421.201 gestações na Noruega. Repare no fundo da curva, perto de 10% entre 25 e 29 anos, na subida a partir dos 35 e no salto depois dos 40, até mais da metade das gestações a partir dos 45. As barras são os intervalos de confiança de 95%.
Fonte: Magnus MC, Wilcox AJ, Morken NH, Weinberg CR, Håberg SE. BMJ. 2019;364:l869 [21]. Figura 2 do artigo original, reproduzida sob licença Creative Commons Attribution (CC BY 4.0).
Suplementos e hormônios protegem a reserva ovariana?
Nenhum suplemento cria folículo, e o declínio da reserva é irreversível. Os estudos testam se antioxidantes e hormônios melhoram a resposta à estimulação ou desaceleram a perda. O alvo é o estresse oxidativo (Figura 7) [4].

Figura 7. O envelhecimento ovariano passa pelo estresse oxidativo: com a idade, a produção intraovariana de espécies reativas de oxigênio supera a defesa antioxidante, com dano aos telômeros, disfunção mitocondrial, inflamação e apoptose. Os antioxidantes naturais aparecem como moduladores experimentais; a evidência clínica em fertilidade ainda é de baixa qualidade.
Fonte: Jacobsen L. Hormofem: terapia hormonal feminina. 4ª ed. São Paulo: Ed. do Autor; 2025. p. 139. ISBN 978-65-01-71472-1 [4]. Ilustração do livro, adaptada de Yang et al., 2020.
Para retardar o envelhecimento ovariano, a estratégia ideal precisaria começar com a reserva ainda boa, durar anos, agir sobre a ativação e a atresia dos folículos primordiais e ser segura na pré-concepção, na gestação e na lactação (Figura 8) [43]. Nenhuma intervenção disponível cumpre os quatro critérios com evidência em mulheres.

Figura 8. Os quatro requisitos de uma estratégia para retardar o envelhecimento ovariano. Repare no primeiro: o que já se perdeu não se recupera, e por isso qualquer intervenção faz sentido antes de a reserva cair, não depois.
Fonte: Aula Suplementos para Prevenir Envelhecimento Ovariano, Pós-graduação HORMOFEM (Módulo 11), slide 19; adaptado de Cavalcante et al., 2023 [43].
Separo dois cenários. Com boa reserva, a base é estilo de vida: sono, estresse, peso, parar de fumar, corrigir vitamina D e resistência à insulina. Não existe pílula mágica. Na mulher com reserva baixa que vai para estimulação, uso adjuvantes por tempo definido, sabendo que a evidência vem de ensaios pequenos com desfecho intermediário (Tabela 4).
Tabela 4. Suplementos e hormônios adjuvantes na reserva baixa e na fertilidade: o que a melhor evidência mostra.
| Adjuvante | O que mostra | Força da evidência |
|---|---|---|
| DHEA | Na má respondedora em FIV, pouca ou nenhuma diferença no nascido vivo ou gravidez em curso (OR 1,30; IC 95% 0,95 a 1,76; 9 ensaios) | Moderada, sem benefício claro |
| Testosterona transdérmica antes da estimulação | Na má respondedora em FIV, mais nascidos vivos (OR 2,53; IC 95% 1,61 a 3,99; 8 ensaios, 716 mulheres) | Moderada; só na FIV, duração ideal desconhecida |
| Coenzima Q10 | Mais gravidez clínica (28,8% contra 14,1%), sem diferença no nascido vivo; na reserva diminuída, 1,3 oócito a mais | Baixa; ensaios pequenos e mal descritos |
| Melatonina | Na reprodução assistida, mais oócitos maduros e gravidez clínica, sem efeito no nascido vivo | Baixa |
| Antioxidantes em geral | Podem aumentar a gravidez clínica; nascido vivo incerto | Muito baixa |
| Mio-inositol | Na SOP antes da FIV, efeito incerto no nascido vivo e na gravidez clínica | Muito baixa |
| Vitamina D | Corrigir a deficiência sobe o AMH na mulher ovulatória sem SOP e o reduz na SOP; não cria folículo | Baixa, estudos heterogêneos |
| Resveratrol | Em ciclos de transferência embrionária, menos gravidez clínica (OR 0,54) e mais aborto (OR 2,60) | Coorte retrospectiva; sinal de dano |
| Plasma rico em plaquetas intraovariano | Na má respondedora, 1,6 folículo antral e 0,12 ng/mL de AMH a mais; nascido vivo de 18% sem grupo controle | Muito baixa; experimental |
Adaptado de Naik et al., 2024 [44], Florou et al., 2020 [45], Lin et al., 2024 [46], Hu et al., 2020 [38], Veiga et al., 2024 [39], Showell et al., 2020 [22], Showell et al., 2018 [50], Moridi et al., 2020 [14], Ochiai et al., 2019 [47], e Sadeghpour et al., 2025 [48].
Três linhas da tabela mudam a prescrição. Androgênio é preparo de FIV na má respondedora, não tratamento da tentante: nesse preparo, a opção é a testosterona, em nível fisiológico, suspensa na coleta dos óvulos; a DHEA tem evidência fraca e não mudou o nascido vivo na Cochrane de 2024 [44]. Nunca na tentante espontânea sem controle, porque testosterona suprafisiológica na gestação pode virilizar o feto feminino. A coenzima Q10 tem o melhor sinal entre os antioxidantes: nas metanálises, aumentou a gravidez clínica e melhorou marcadores, como o número de oócitos na reserva diminuída, mas não mudou o nascido vivo [45, 46]. É o que a evidência sustenta. Na minha opinião, e é opinião pessoal, considero a coenzima Q10 uma opção necessária para todas as tentantes. E antioxidante bom para o envelhecimento não é necessariamente bom para quem tenta engravidar: depois do achado com o resveratrol [47], não uso resveratrol nem curcumina na tentante.
Na minha hierarquia dos hormônios da fertilidade, a melatonina vem antes de todos (Figura 9); é ordem de raciocínio clínico meu, não de ensaio, e nenhum desses adjuvantes entra com promessa de resultado.

Figura 9. Hierarquia hormonal da fertilidade, opinião de especialista. A faixa mais larga, a melatonina, é por onde começo; depois vitamina D; depois tireoide, cortisol e insulina; por último GH, androgênios, estradiol e progesterona. Não é hierarquia de evidência: a ordem é de prioridade clínica.
Fonte: Aula Hormônios e Fertilidade, Pós-graduação HORMOFEM (Módulo 11), slide 3.
Quando encaminhar ao especialista em reprodução?
Infertilidade é a ausência de gestação após 12 meses de relações regulares sem proteção abaixo dos 35 anos, ou após 6 meses a partir dos 35 [23]; acima dos 40, avaliação e tratamento são imediatos [18, 23].
Tabela 5. Quando investigar a infertilidade e quando não esperar.
| Situação | Quando investigar |
|---|---|
| Menos de 35 anos, ciclos regulares, sem fator de risco | Após 12 meses de tentativa |
| 35 a 39 anos | Após 6 meses de tentativa |
| 40 anos ou mais | Imediatamente |
| Oligomenorreia ou amenorreia | Imediatamente |
| Doença uterina, tubária ou peritoneal conhecida ou suspeita | Imediatamente |
| Endometriose estágio III ou IV | Imediatamente |
| Fator masculino conhecido ou suspeito | Imediatamente |
Adaptado de ACOG e ASRM, 2019 [23].
Na minha prática, a lista de "não esperar" é um pouco maior: entram também quimioterapia ou radioterapia prévia, história familiar importante de menopausa precoce e qualquer suspeita clínica de endometriose, mesmo sem estadiamento. A idade de 40 anos não é corte mágico, é o ponto em que cada mês de espera custa caro.
O que o ginecologista já pode investigar
A avaliação básica do casal infértil cabe ao ginecologista e se apoia em três perguntas [2, 23]:
- Ela ovula? Ciclos regulares entre 21 e 35 dias dispensam testes adicionais, salvo hirsutismo; quando é preciso confirmar, a progesterona acima de 3 ng/mL, colhida cerca de uma semana antes da menstruação esperada, e não no "dia 21", é evidência suficiente de ovulação recente [2]. Com oligo ou amenorreia, TSH e prolactina entram na busca da causa [2]. Eu gosto de documentar o primeiro ciclo com ultrassom seriado, que mostra folículo, endométrio e corpo lúteo.
- As trompas estão pérvias? Histerossalpingografia ou histerossonografia são os exames recomendados [2].
- O sêmen é normal? O fator masculino participa da infertilidade em 40% a 50% dos casais, e o espermograma faz parte da avaliação desde o início [23].
Infertilidade sem causa aparente responde por até 30% dos casais e exige, no mínimo, ovulação documentada, trompa pérvia e espermograma normal [23]. Por decisão de prática, acrescento duas coisas para toda paciente infértil: o mapeamento pélvico para endometriose, por ultrassonografia com preparo ou ressonância, porque até metade das mulheres inférteis tem a doença [17], e a pesquisa de infecção cervical e vaginal (clamídia, gonococo, micoplasma, ureaplasma e tricomonas). O risco de IST faz parte do aconselhamento pré-concepcional [24], mas micoplasma e ureaplasma vão além das diretrizes; a ESHRE só admite o estudo da microbiota vaginal em pesquisa [37].
Depois da avaliação básica, o tratamento segue a causa (Tabela 6); na infértil com reserva diminuída, a opção é a fertilização in vitro, com cerca de 20% de nascido vivo por ciclo [5].
Tabela 6. Causas de infertilidade, frequência e tratamento, com o nascido vivo relatado por ciclo de tratamento.
| Causa | Frequência | Tratamento (nascido vivo relatado) |
|---|---|---|
| Disfunção ovulatória | 25% dos casais inférteis | Indução de ovulação (35,4%) |
| Síndrome dos ovários policísticos | 8% a 13% da população | Letrozol (27,5% cumulativo em até 5 ciclos); clomifeno (19,1% cumulativo em até 5 ciclos) |
| Amenorreia hipotalâmica funcional | 1% da população | Terapia cognitivo-comportamental; clomifeno, se o estradiol não indicar supressão completa do eixo; gonadotrofina (dados insuficientes) |
| Insuficiência ovariana prematura | 1% da população | Doação de oócitos (39,0%) |
| Reserva ovariana diminuída | 19% a 26% dos casais inférteis | Fertilização in vitro (19,9%) |
| Fator uterino | 2% a 17% dos casais inférteis | Individualizado (dados insuficientes) |
| Fator tubário | 11% a 67% dos casais inférteis, conforme a população | Fertilização in vitro (38,1%); retirada da hidrossalpinge (razão de chances de gravidez clínica 4,66; IC 95% 2,47 a 10,01) |
| Endometriose | 25% a 50% | Fertilização in vitro (39,5%) |
| Alteração do sêmen | 5% a 40% | Inseminação intrauterina (dados insuficientes); fertilização in vitro (40,8%) |
| Infertilidade sem causa aparente | 15% | Inseminação com clomifeno (23,3%), com letrozol (18,7%) ou com gonadotrofina (32,2% cumulativo em até 4 ciclos); fertilização in vitro (39,9%) |
Adaptado de Santoro e Polotsky, 2025 [5], Tabela 1. Nascido vivo por ciclo de estimulação iniciado em menores de 35 anos, ou por ciclo de doação de oócitos (dados da SART), salvo quando indicado como cumulativo. Na infertilidade sem causa aparente, a gestação múltipla ocorreu em 13% com letrozol, 9% com clomifeno e 32% com gonadotrofina.
Congelamento de óvulos: quando e quantos?
O congelamento "para o relógio" da qualidade, porque o oócito vitrificado mantém a idade da coleta, mas não é garantia, e a ASRM pede que a mulher conheça as incertezas [25]. Idade na coleta e número de óvulos são as duas variáveis que mais pesam.
Numa série espanhola de congelamento eletivo com 1.468 mulheres, das quais 137 voltaram para usar os óvulos, o nascido vivo por paciente foi de 50% até os 35 anos e de 22,9% a partir dos 36 [26]. Até os 35 anos, o nascido vivo cumulativo foi de 15,4% com 5 óvulos, 40,8% com 8 e 85,2% com 10 a 15; a partir dos 36, de 5,1%, 19,9% e 35,6% com 11 ou mais [26]. Os autores concluem que são necessários pelo menos 8 a 10 oócitos maduros para uma chance razoável, e que o número deve ser individualizado depois dos 36 [26].
Fora do contexto oncológico, vitrificar oócitos maduros rende mais; o tecido ovariano fica para a pré-púbere e para quem não pode adiar a quimioterapia (Tabela 7) [42].
Tabela 7. Indicações de preservação de fertilidade na mulher.
| Grupo | Indicações |
|---|---|
| Doença maligna com quimioterapia ou radioterapia gonadotóxica, ou transplante de medula | Leucemias e linfomas (Hodgkin e não Hodgkin), câncer de mama, sarcoma, alguns cânceres pélvicos |
| Doença sistêmica benigna | Doenças não oncológicas que exigem quimioterapia, radioterapia ou transplante de medula, como talassemia e lúpus |
| Doença ovariana benigna | Tumores ovarianos bilaterais; endometriose ovariana grave ou recorrente; risco de torção ovariana |
| Endometrioma (critérios estritos propostos pelos autores) | AMH baixo; idade acima de 30 anos; endometrioma bilateral; recidiva após cirurgia; crescimento rápido; endometrioma em idade jovem |
| Risco de insuficiência ovariana prematura | História familiar; síndrome de Turner |
| Motivo social | Idade; adiamento da gestação |
Adaptado de Dolmans e Donnez, 2021 [42], Tabela 1 e Figura 4.
No consultório, junto as duas réguas: a jovem com AMH baixo para a idade ouve sobre congelamento enquanto a idade ainda joga a favor, e a de 39 anos com AMH normal precisa saber que o número de óvulos pode ser bom, mas a qualidade já acompanha a idade.
O preparo pré-concepcional pelo ginecologista
O aconselhamento começa com uma pergunta que o ACOG sugere fazer em toda consulta: "você gostaria de engravidar no próximo ano?" [24].
- Ácido fólico de 0,4 a 0,8 mg ao dia para toda mulher que planeja ou pode engravidar, recomendação de grau A [28].
- Vacinação e doenças crônicas: atualizar o calendário e controlar diabetes, hipertensão, doença psiquiátrica e tireoide antes de engravidar [24].
- Tireoide: a ESHRE considera a dosagem de TSH boa prática no preparo, sem investigação adicional quando ele vem normal [37]; o subclínico na infértil tem diretriz própria da ASRM [29] e da ATA, com evidência baixa a moderada [30]. Com TSH alto e T4 livre normal, corrijo primeiro ferro, selênio e outros fatores e repito o exame; com hipotireoidismo franco, inicio levotiroxina sem esperar.
- Peso: IMC acima de 35 dobra o tempo até a concepção, e abaixo de 19 o quadruplica [20].
- Álcool, tabaco, drogas e medicamentos: perguntar a todas e revisar a prescrição [20, 24]; tabagismo e mais de dois drinques por dia aumentam o risco relativo de infertilidade em cerca de 60% [20].
- Janela fértil: os 6 dias que terminam na ovulação, com relações a cada 1 ou 2 dias [20].
Mitos que chegam ao consultório
- "Meu AMH está baixo, então não vou engravidar." Falso para a gravidez espontânea na mulher sem infertilidade [8].
- "Meu AMH está ótimo, então tenho tempo." O AMH não mede qualidade, e a qualidade acompanha a idade [9].
- "A pílula gasta meus óvulos." Ela reduz o AMH de forma reversível [12], e numa metanálise de 22 estudos com 14.884 mulheres, 83% engravidaram nos 12 meses após suspender o método, sem diferença entre hormonais e DIU nem pelo tempo de uso [49].
Quando a conduta muda?
- Amenorreia ou ciclos muito irregulares: não é questão de reserva. Investigue a causa da anovulação, inclusive insuficiência ovariana prematura, com FSH colhido em qualquer dia [31].
- AMH indetectável numa mulher jovem: confirme com FSH e estradiol e pense em insuficiência ovariana prematura, que tem diretriz e conduta próprias; a diretriz aceita o AMH para confirmar o diagnóstico quando o FSH é inconclusivo [31].
- Tratamento gonadotóxico programado: encaminhamento para preservação de fertilidade antes de começar [27].
- Endometriose com desejo de engravidar: o bloqueio trata a dor, mas sai quando ela quer engravidar; a ESHRE não recomenda supressão ovariana para melhorar a fertilidade, nem no pós-operatório [17].
Em resumo
Reserva ovariana é quantidade. O AMH prevê quantos oócitos a estimulação vai render, mas não prevê a gravidez espontânea. Leia-o contra a idade e fora do bloqueio hormonal; é a idade que define a qualidade oocitária e a pressa. O exame bom é o que abre a conversa sobre planejamento reprodutivo, não o que fecha a porta da paciente.
O que muda no consultório
- 1Explique à paciente que AMH não é teste de fertilidade, e sim de reserva e de resposta à estimulação.
- 2Leia o AMH contra a idade: 2,5 aos 30, 1,5 aos 35 e 1 aos 40 como limites inferiores de referência.
- 3Dose fora do bloqueio hormonal, cerca de dois meses após suspender, ou registre que o valor vem subestimado.
- 4Peça AMH antes de qualquer cirurgia ovariana e antes de tratamento gonadotóxico em quem ainda quer filhos.
- 5Investigue após 12 meses abaixo dos 35 anos, 6 meses a partir dos 35 e imediatamente a partir dos 40 ou com causa conhecida.
- 6Na avaliação básica, responda três perguntas: ela ovula, as trompas estão pérvias, o sêmen é normal?
- 7Testosterona só no preparo de FIV da má respondedora, suspensa na coleta (a DHEA tem evidência fraca); resveratrol e curcumina, nunca na tentante.
Perguntas frequentes
AMH baixo significa que a mulher não vai engravidar?
Não. Num estudo prospectivo com mulheres de 30 a 44 anos sem história de infertilidade, quem tinha AMH abaixo de 0,7 ng/mL engravidou na mesma proporção que quem tinha AMH normal, e o seguimento de mais de três anos também não mostrou menos nascidos vivos. O AMH prevê quantos oócitos uma estimulação vai render, não a chance de gravidez espontânea.
Qual é o valor normal de AMH?
Depende da idade e do ensaio. Como referência conservadora, os limites inferiores esperados são cerca de 3,0 ng/mL aos 25 anos, 2,5 aos 30, 1,5 aos 35, 1 aos 40 e 0,5 aos 45. Os kits mais novos tendem a dar valores mais altos, e por isso a comparação deve ser feita sempre com o mesmo método.
Preciso suspender o anticoncepcional para dosar o AMH?
É o ideal. Os contraceptivos hormonais reduzem o AMH em cerca de 15% a 35%, conforme o método; o DIU de cobre não altera o exame. Os valores se normalizam cerca de dois meses após a suspensão. Se não for possível suspender, o resultado deve ser lido sabendo que vem subestimado.
Em que dia do ciclo se colhe o AMH?
Em qualquer dia. O AMH varia pouco ao longo do ciclo, e a coleta num dia fixo não traz vantagem. Já a contagem de folículos antrais e o par FSH e estradiol precisam ser feitos no início do ciclo, do 2º ao 5º dia.
Vitamina D ou suplementos aumentam a reserva ovariana?
Não criam folículos. Na má respondedora que vai para fertilização in vitro, a testosterona transdérmica antes da estimulação aumentou o nascido vivo nos ensaios, a DHEA não, e a coenzima Q10 aumentou a gravidez clínica sem mudar o nascido vivo. A vitamina D corrige a deficiência e mexe no AMH, mas não cria reserva. O resveratrol, em ciclos de transferência embrionária, associou-se a menos gravidez e mais aborto.
O anticoncepcional prejudica a fertilidade futura?
Não. Ele reduz o AMH de forma reversível enquanto é usado. Numa metanálise de 22 estudos com 14.884 mulheres, 83% engravidaram nos 12 meses após suspender o método, sem diferença entre métodos hormonais e DIU nem pelo tempo de uso.
Quando encaminhar ao especialista em reprodução?
Após 12 meses de tentativa abaixo dos 35 anos, após 6 meses a partir dos 35 e imediatamente a partir dos 40. Também sem esperar quando há oligomenorreia ou amenorreia, doença tubária, uterina ou peritoneal, endometriose avançada ou suspeita de fator masculino.
Até que idade vale a pena congelar óvulos?
Quanto mais cedo, melhor o resultado. Numa série de 1.468 congelamentos eletivos, o nascido vivo por paciente foi de 50% até os 35 anos e de 22,9% a partir dos 36, e são necessários pelo menos 8 a 10 oócitos maduros para uma chance razoável. O congelamento não garante gravidez.
Cirurgia de endometrioma prejudica a fertilidade?
Pode reduzir a reserva: nas metanálises, a cistectomia baixou o AMH em média 1,13 ng/mL, ou de 35% a 54%, com perda maior na cirurgia bilateral e na reoperação. A ESHRE não recomenda operar endometrioma de rotina antes da reprodução assistida e pede que o risco para a reserva entre na decisão quando a cirurgia é indicada pela dor.
SOP com AMH alto significa mais fertilidade?
Significa mais folículos, não mais fertilidade. Na SOP, o AMH alto acompanha a morfologia policística, e a dificuldade para engravidar costuma vir da anovulação, que é tratável. A reserva maior favorece a resposta à estimulação e exige cuidado com hiper-resposta.
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Como citar este artigo
Jacobsen L. Reserva ovariana e AMH: o que o exame diz e o que não diz sobre fertilidade. Blog Científico HORMOFEM [Internet]. 2026 nov 8. Disponível em: https://hormofem.com.br/blog/reserva-ovariana-amh-fertilidade/

Dr. Leonardo Jacobsen
Ginecologia e Obstetrícia · CRM/SC 20930 · RQE 17351
Ginecologista, professor e pesquisador em endocrinologia feminina. Fundador da Escola HORMOFEM e autor do livro Terapia Hormonal Feminina.
Conteúdo educativo destinado a profissionais de saúde. Não substitui a avaliação individual nem estabelece conduta para um caso específico.
