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Contracepção hormonal: como escolher o método para cada mulher

Critérios da OMS e do CDC, trombose por progestina, sangramento, humor, interações, contracepção depois dos 40 e de emergência: como escolher o método.

Dr. Leonardo Jacobsen

Por Dr. Leonardo Jacobsen

Ginecologia e ObstetríciaCRM/SC 20930 · RQE 17351

8 nov 202630 min de leitura46 referências

Neste artigo
  1. Como escolher o método contraceptivo?
  2. O que dizem os critérios de elegibilidade da OMS e do CDC?
  3. Quais são os métodos e no que eles diferem?
  4. Qual é o risco de trombose de cada progestina?
  5. Que benefícios a contracepção hormonal traz além de evitar gravidez?
  6. Por que as mulheres abandonam o método e como manejar?
  7. Quais medicamentos reduzem a eficácia da contracepção?
  8. Contracepção acima dos 40: até quando e com o quê?
  9. Como usar a contracepção de emergência?
  10. Quando a conduta muda?
  11. Em resumo

A escolha do método segue uma ordem: primeiro a segurança, depois a eficácia real, por fim o que o método faz além de contraceptar, e em todas as etapas a preferência da mulher. A segurança vem das categorias 1 a 4 da OMS e do CDC; a eficácia real favorece DIU e implante, que falham em menos de 1% ao ano, contra 4% a 7% das pílulas no uso típico [1].

Contracepção parece assunto resolvido, e é exatamente por isso que se erra tanto nela. Existem quase vinte métodos, duas tabelas de elegibilidade e uma lista crescente de progestinas com perfis diferentes. Este texto organiza o raciocínio que eu ensino, da enxaqueca com aura e do tabagismo, que tiram o estrogênio da mesa, à mulher acima dos 40, para quem a progestina costuma ser a melhor escolha.

Imagem ilustrativa: Contracepção
Foto: Hirzul Maulana, no Unsplash

Como escolher o método contraceptivo?

Não existe método ideal; existe o método adequado ao perfil clínico e reprodutivo daquela mulher. A revisão do JAMA que uso como roteiro propõe a sequência: confirmar a necessidade de contracepção reversível, checar a elegibilidade, ouvir a preferência e, se ela não tiver uma, aconselhar com base no que ela valoriza (eficácia máxima, pouca manutenção, menos sangramento, controle da acne) [1].

A eficácia real depende mais da adesão do que do fármaco. Com uso típico, as pílulas falham em 4% a 7% ao ano, enquanto DIU e implante ficam abaixo de 1% [1]. No projeto CHOICE, com 7.486 mulheres, a taxa de falha de pílula, adesivo e anel foi de 4,55 por 100 mulheres-ano, contra 0,27 nos métodos de longa ação (LARC), uma diferença de cerca de vinte vezes após ajuste [2]. Quando o custo saiu da equação, 68% escolheram LARC, e a continuidade em um ano foi de 86% com eles contra 55% com a pílula [3].

Na prática, o início pode ser imediato. Se a gravidez foi razoavelmente excluída, o método começa em qualquer dia do ciclo (o chamado quick start), com sete dias de método de barreira quando o início não coincide com os primeiros dias da menstruação [1, 4]. Se houve relação desprotegida nos últimos cinco dias, considero a contracepção de emergência, inicio o método escolhido mesmo assim e repito o teste de gravidez em duas a três semanas [4]. Antes de prescrever, bastam história clínica, pressão arterial e IMC; exame pélvico, citologia, lipidograma, glicemia e rastreio de trombofilia não são pré-requisito [4].

O que dizem os critérios de elegibilidade da OMS e do CDC?

Os dois documentos usam as mesmas quatro categorias [5, 6]:

  • Categoria 1: sem restrição.
  • Categoria 2: as vantagens em geral superam os riscos teóricos ou comprovados.
  • Categoria 3: os riscos em geral superam as vantagens; o método não é recomendado, salvo quando não há alternativa aceitável.
  • Categoria 4: risco inaceitável; não usar.

A tabela da OMS (5ª edição, 2015) e a americana (US MEC, revisada em 2024) concordam na maior parte das condições. A versão americana de 2024 trouxe recomendações para doença renal crônica e passou a separar o acetato de medroxiprogesterona injetável das outras progestinas nas condições trombogênicas [6, 7]. Ninguém precisa decorar as tabelas: os dois têm aplicativo gratuito, e é ele que eu abro quando aparece meningioma, hepatopatia, transplante ou qualquer condição menos frequente.

Tabela 1. Categorias de elegibilidade nos cenários mais comuns do consultório.

Condição DIU de cobre SIU-LNG Implante AMPD injetável Pílula de progestagênio Combinado
Idade ≥40 anos 1 1 1 1 (2 acima de 45) 1 2
Tabagismo, ≥35 anos, <15 cigarros/dia 1 1 1 1 1 3
Tabagismo, ≥35 anos, ≥15 cigarros/dia 1 1 1 1 1 4
Enxaqueca sem aura 1 1 1 1 1 2
Enxaqueca com aura 1 1 1 1 1 4
Hipertensão controlada 1 1 1 2 1 3
PA ≥160/100 mmHg 1 2 2 3 2 4
TEV prévio sem anticoagulação, alto risco de recorrência 1 2 2 3 2 4
Trombofilia conhecida 1 2 2 3 2 4
Obesidade (IMC ≥30) 1 1 1 1 1 2
Bariátrica disabsortiva (bypass) 1 1 1 1 3 3 (oral)
Amamentação, <21 dias pós-parto ver nota ver nota 2 2 2 4
Lúpus com antifosfolípide positivo 1 2 2 3 2 4
Câncer de mama atual 1 4 4 4 4 4

Adaptado de Nguyen et al., US MEC 2024 [6]. Nota: o DIU no pós-parto tem categoria própria pelo momento da inserção (2 até quatro semanas; 1 depois). SIU-LNG: sistema intrauterino de levonorgestrel; AMPD: acetato de medroxiprogesterona de depósito.

Os cenários que mais aparecem

Enxaqueca com aura é categoria 4 para qualquer método com estrogênio, pelo risco de AVC isquêmico; todos os métodos só de progestagênio e os DIUs ficam liberados [6]. Enxaqueca sem aura não contraindica o combinado.

Tabagismo acima dos 35 anos tira o combinado da mesa (categoria 3 ou 4, conforme o número de cigarros), e o mesmo raciocínio vale para a mulher mais velha com vários fatores de risco cardiovascular. O livro HORMOFEM é explícito: nessas mulheres, o combinado é contraindicado ou usado com cautela mesmo com a hipertensão controlada [8].

Trombose e trombofilia. TEV prévio ou trombofilia conhecida contraindicam o estrogênio. Pílula de progestagênio, implante e SIU-LNG ficam em categoria 2; desde 2024, o injetável trimestral subiu para 3 nessas situações [6, 7]. Não se rastreia trombofilia antes de prescrever. Em cirurgia de grande porte com imobilização prolongada, o combinado é categoria 4 [6]. O efeito do combinado sobre a coagulação leva de duas a quatro semanas para se desfazer, e por isso a recomendação do ACOG, que eu sigo, é suspendê-lo de quatro a seis semanas antes (cirurgia ortopédica, plástica, qualquer uma que imobilize) e retomá-lo quando a mobilidade voltar ao normal [40]. Os autores da revisão do New England lembram que parar semanas antes nem sempre é prático e que, em muitos cenários, manter o hormônio com tromboprofilaxia é alternativa razoável [40].

Pós-parto e amamentação. O puerpério já multiplica o risco trombótico, e por isso eu evito estrogênio nesse período. Pela tabela americana, na lactante o combinado é categoria 4 até 21 dias e 3 entre 21 e 30 dias; a partir dos 30 dias, cai para 2 quando não há outro fator de risco de TEV (idade acima de 35, cesárea, pré-eclâmpsia, IMC ≥30, tabagismo); com esses fatores, a queda para 2 espera os 42 dias [6]. A OMS é mais restritiva com a lactante e mantém o combinado em categoria 3 até os seis meses de amamentação [5]. Métodos só de progestagênio podem ser usados durante a amamentação.

Obesidade não reduz a eficácia do combinado nem o contraindica (categoria 2), mas soma risco trombótico. Prefiro progestagênio isolado, e o SIU-LNG reúne três vantagens: não depende do peso, não aumenta trombose e protege um endométrio que, na obesa, tem mais risco de hiperplasia. Na bariátrica restritiva (sleeve, banda), tudo é categoria 1; no bypass, qualquer comprimido perde confiabilidade, e passo para DIU, implante ou injetável [6].

Quais são os métodos e no que eles diferem?

Tabela 2. Métodos hormonais e DIU de cobre: o que cada um faz além de contraceptar.

Método Inibe a ovulação? Falha no uso típico Padrão de sangramento O que pesa na escolha
Combinado (etinilestradiol, estradiol ou estetrol) Sim 4% a 7% ao ano Controle de ciclo, menos escape Risco de TEV; regime contínuo preferível
Desogestrel 75 mcg Sim 4% a 7% ao ano Escape frequente nos primeiros meses Sem estrogênio, sem aumento de TEV
Drospirenona 4 mg (24/4) Sim, mesmo com atrasos de 24 h 4% a 7% ao ano Menos escape que o desogestrel Antiandrogênica; cautela na hipercalemia
Dienogeste 2 mg Sim Sem ensaio de eficácia contraceptiva Escape inicial, amenorreia frequente depois Fora da bula como contraceptivo
AMPD trimestral Sim 4% a 7% ao ano Amenorreia em 46% após a 4ª dose Ganho de peso, osso, TEV, fertilidade tardia
Implante de etonogestrel Sim, sem suprimir o estradiol <1% ao ano Imprevisível em até metade O mais eficaz; padrão dos 3 primeiros meses prediz o futuro
SIU-LNG 52 mg Não, na maioria <1% ao ano Reduz o fluxo; amenorreia em cerca de 18% no 1º ano Trata SUA e protege o endométrio
SIU-LNG 19,5 mg Não, na maioria <1% ao ano Menos amenorreia Menor; útil na nuligesta
DIU de cobre Não <1% ao ano Aumenta fluxo e cólica Sem hormônio

Adaptado de Teal e Edelman, 2021 [1], Duijkers et al., 2016 [9], Klipping et al., 2012 [10], Palacios et al., 2020 [11], Sergison et al., 2019 [42] e Jacobsen, 2025 [8].

Combinados: o estrogênio não é o contraceptivo

Quem bloqueia o LH e a ovulação é a progestina. O estrogênio entra para estabilizar o endométrio e reduzir o escape, e de quebra reforça a supressão do FSH [8]. Por isso existem métodos só de progestagênio e não existem métodos só de estrogênio.

O etinilestradiol é potente e resistente ao metabolismo hepático, e é aí que mora o problema: ele eleva SHBG, angiotensinogênio e fatores da coagulação. A evolução dos combinados não buscou mais eficácia, que já era alta, e sim menos impacto hepático, trocando o etinilestradiol por estradiol, valerato de estradiol ou estetrol [12]. O estetrol, estrogênio fetal de ação tecidual seletiva, associado à drospirenona, tem efeito pequeno sobre SHBG, lipídios e marcadores hepáticos [12].

Sobre o regime, a pausa de sete dias não tem benefício para a saúde. Ela foi criada nos anos 1960 para que a mulher tivesse a menstruação como prova de que não estava grávida. No intervalo, o folículo volta a crescer: numa revisão de 161 estudos, a supressão ovariana dos combinados de baixa dose na pausa de sete dias foi insuficiente, e a maior parte dos folículos dominantes apareceu justamente nesse período [41]. Cefaleia, dor pélvica e humor também pioram na pausa. O uso contínuo ou estendido é seguro e pode melhorar a tolerância e a eficácia [1, 4]. Eu prescrevo contínuo, com pausa curta quando aparece escape, mas respeito a mulher que prefere sangrar todo mês. Para o esquecimento, sigo a conduta do CDC (Figura 1): até 48 horas, basta tomar a pílula e seguir; com dois ou mais comprimidos perdidos, barreira por sete dias [4].

Conduta do CDC diante de pílula combinada atrasada ou esquecida. À esquerda, um comprimido atrasado ou esquecido há menos de 48 horas: tomar assim que lembrar, seguir a cartela no

Figura 1. Conduta do CDC diante de pílula combinada atrasada ou esquecida. À esquerda, um comprimido atrasado ou esquecido há menos de 48 horas: tomar assim que lembrar, seguir a cartela no horário habitual, sem proteção adicional. À direita, dois ou mais comprimidos (48 horas ou mais): tomar o mais recente, usar barreira ou abstinência por sete dias e, se o esquecimento cair na última semana de comprimidos ativos, emendar a cartela seguinte sem pausa. A contracepção de emergência entra quando o esquecimento foi na primeira semana com relação desprotegida nos cinco dias anteriores, exceto o ulipristal (UPA), cujo efeito a progestina da pílula reduz.

Reproduzido de Curtis KM, Nguyen AT, Tepper NK, et al. U.S. Selected Practice Recommendations for Contraceptive Use, 2024. MMWR Recomm Rep. 2024;73(3) [4], Figura 1. Domínio público (série MMWR, CDC).

Progestagênio isolado oral: desogestrel e drospirenona

São as duas pílulas só de progestagênio que contraceptam de forma confiável. A noretisterona 0,35 mg, a velha minipílula, inibe a ovulação de forma inconsistente e depende de horário rigoroso [1]; eu não uso. O desogestrel 75 mcg, pró-fármaco do etonogestrel, inibe a ovulação em mais de 99% dos ciclos [13]. A drospirenona 4 mg, análoga da espironolactona, vem em 24 comprimidos ativos e 4 de placebo; com quatro atrasos intencionais de 24 horas, a ovulação ocorreu em 0,8% das mulheres [9].

O dienogeste 2 mg não tem indicação contraceptiva em bula porque nunca foi testado com esse desfecho, e não porque falhe: no estudo farmacodinâmico, nenhuma das 20 mulheres com 2 mg ovulou [10]. Eu o uso como bloqueio, sabendo que a contracepção é fora da bula. A gestrinona, que também uso como bloqueio em outras indicações, não garante contracepção e precisa de método associado [8].

Injetável trimestral

Altamente eficaz e sem exigência de adesão diária, mas carrega o perfil glicocorticoide e androgênico do acetato de medroxiprogesterona: ganho de peso, pequena perda de massa óssea e retorno da fertilidade que pode demorar até 12 meses [1, 7]. Foi o método que mais usei no ambulatório público, por ser o mais eficaz disponível no posto. No consultório, faz anos que não prescrevo.

Implante e SIU de levonorgestrel

O implante de etonogestrel é o contraceptivo reversível mais eficaz. Ele bloqueia a ovulação, mas mantém o estradiol endógeno, sem hipoestrogenismo [13]. O SIU-LNG age por outro caminho: espessa o muco, atrofia o endométrio e reduz a motilidade dos espermatozoides, mas a maioria das usuárias continua ovulando [8]. Isso tem consequência prática: o SIU-LNG trata fluxo e protege o endométrio, mas não resolve sintoma cíclico; para TDPM ou mastalgia cíclica, ele precisa de uma progestina de bloqueio ao lado.

Entre as duas doses disponíveis, a de 52 mg é a que eu uso para sangramento, adenomiose e proteção endometrial. A de 19,5 mg libera menos levonorgestrel, dá menos amenorreia e tem insertor mais fino; reservo-a para contracepção pura na nuligesta de útero pequeno. Vale calibrar a expectativa: mesmo com 52 mg, só cerca de 18% das usuárias chegam a 90 dias seguidos de amenorreia no primeiro ano (IC 95% 14,9 a 21,5) [42]. Quem quer parar de menstruar precisa saber que isso vem com o tempo, e nem sempre.

A dor da inserção é a principal barreira ao DIU, sobretudo na nuligesta. Antes do pinçamento, faço bloqueio com 2 mL de anestésico no lábio anterior do colo, ou de 1 a 2 mL nos quatro pontos cardinais. No ensaio brasileiro de Ribeirão Preto, com 302 nuligestas, o bloqueio intracervical com lidocaína reduziu a dor intensa no pinçamento de 15,2% para 2% e na inserção do SIU-LNG de 50,5% para 26,5%, sem dificultar o procedimento [43].

DIU de cobre

Usei muito no começo da minha prática, pelo apelo de "não ter hormônio". Abandonei na maior parte dos cenários: o cobre provoca uma reação inflamatória endometrial que aumenta o fluxo, os dias de sangramento e a cólica, e foram muitas as pacientes que pediram para retirar. Na perimenopausa, que já sangra mais, ele é a pior escolha. Se a paciente o tem e está bem, ele fica, e posso associar uma progestina quando houver sintomas.

Qual é o risco de trombose de cada progestina?

Quanto menos androgênica a progestina associada ao etinilestradiol, maior o risco de trombose; sem o estrogênio, a pílula, o implante e o SIU não aumentam esse risco.

Dr. Leonardo Jacobsen

Na revisão Cochrane de 26 estudos, o combinado oral multiplicou o risco de trombose venosa por 3,5 (IC 95% 2,9 a 4,3) [14]. O efeito depende da dose de etinilestradiol e da progestina: com 30 a 35 mcg de etinilestradiol, as formulações com gestodeno, desogestrel, ciproterona ou drospirenona tiveram risco 50% a 80% maior do que as com levonorgestrel [14]. A metanálise de Dragoman confirmou riscos relativos de 1,5 a 2,0 contra o levonorgestrel, em linha com as metanálises anteriores (Figura 2) [15].

Risco relativo de trombose venosa de cada progestina associada ao etinilestradiol em dose baixa (menos de 50 mcg), comparada ao levonorgestrel, que vale 1. A primeira linha é a met

Figura 2. Risco relativo de trombose venosa de cada progestina associada ao etinilestradiol em dose baixa (menos de 50 mcg), comparada ao levonorgestrel, que vale 1. A primeira linha é a metanálise de Dragoman; as de baixo, as metanálises anteriores (estimativas não ajustadas). Ciproterona, desogestrel, drospirenona e gestodeno ficam entre 1,5 e 2,0 em quase todas; o norgestimato não difere do levonorgestrel, e o dienogeste tem intervalo largo demais para conclusão.

Reproduzido de Dragoman MV, Tepper NK, Fu R, Curtis KM, Chou R, Gaffield ME. Int J Gynaecol Obstet. 2018;141(3):287-294 [15], Tabela 2. Licença CC BY IGO.

3,5

Vezes mais trombose venosa com combinado oral em relação à não usuária, na revisão Cochrane [14].

As gerações das progestinas derivadas da 19-nortestosterona. Da esquerda para a direita, a androgenicidade cai; associadas ao etinilestradiol, as de terceira geração e a drospireno

Figura 3. As gerações das progestinas derivadas da 19-nortestosterona. Da esquerda para a direita, a androgenicidade cai; associadas ao etinilestradiol, as de terceira geração e a drospirenona (derivada da espironolactona, fora da figura) se associam a mais trombose do que a noretisterona e o levonorgestrel.

Fonte: Jacobsen L. Hormofem: terapia hormonal feminina. 4ª ed. São Paulo: Ed. do Autor; 2025. ISBN 978-65-01-71472-1 [8]. Ilustração do livro, 7ª edição (no prelo).

O número relativo assusta mais do que o absoluto, e é o absoluto que a paciente precisa ouvir. Fora da gestação, a incidência de TEV é de 1 a 5 por 10 mil mulheres-ano; com combinado, de 3 a 15; na gestação, de 5 a 20; no pós-parto, de 40 a 65 [16]. A gravidez que o método evita é mais trombogênica do que o próprio método.

E o estrogênio "natural" muda essa conta? Há sinais a favor. Na coorte INAS-SCORE, com mais de 50 mil mulheres, o combinado de valerato de estradiol e dienogeste teve risco de TEV igual ou menor que o dos outros combinados [17]. No estudo PRO-E2, com 101 mil mulheres, estradiol com acetato de nomegestrol não aumentou o risco de TEV em relação ao levonorgestrel (HR ajustado 0,59; IC 95% 0,25 a 1,35) [18]. Para o estetrol, por enquanto, há dados de hemostasia, não de eventos [12]. Menos efeito hepático é promissor; menos trombose ainda não é certeza para todos.

Nos métodos só de progestagênio, a metanálise de Mantha não mostrou aumento de TEV com pílula (RR 0,90) nem com SIU-LNG (RR 0,61); o injetável foi a exceção (RR 2,67; IC 95% 1,29 a 5,53) [19]. É essa diferença que a tabela americana de 2024 passou a incorporar [7].

Que benefícios a contracepção hormonal traz além de evitar gravidez?

Muitas vezes é o benefício, e não a contracepção, que decide a indicação:

  • Sangramento uterino anormal. O SIU-LNG 52 mg está entre os tratamentos clínicos mais eficazes para o sangramento menstrual intenso [20], tema detalhado no texto sobre sangramento intenso na perimenopausa.
  • Endometriose. Combinados e progestagênios isolados estão entre as opções de primeira linha para a dor [21].
  • SOP. O combinado é a primeira linha farmacológica para irregularidade menstrual e hirsutismo [22].
  • TDPM. A drospirenona com etinilestradiol em regime 24/4 melhora os sintomas globais [23], de preferência sem a pausa, como discuto no texto sobre TDPM e perimenopausa.
  • Câncer. Na coorte do Royal College, quem usou combinado teve menos câncer de endométrio (IRR 0,66), ovário (0,67) e colorretal (0,81), com proteção que persiste por pelo menos 30 anos [24].

Por que as mulheres abandonam o método e como manejar?

Sangramento irregular

É a primeira causa de abandono dos métodos só de progestagênio, e quase sempre por falta de aviso. O que explico antes de qualquer progestina contínua, seja pílula, implante ou SIU, é que a maior parte das mulheres termina num padrão favorável (amenorreia, sangramento infrequente ou um escape curto por mês), uma minoria fica num padrão desfavorável (sangramento frequente ou prolongado) e os três primeiros meses costumam ser os piores, sem definir o grupo.

Média de dias de sangramento ou escape não programado com drospirenona 4 mg (barras pretas) e desogestrel 75 mcg (barras cinza) nos ciclos 2 a 4, 2 a 6 e 2 a 9 de um ensaio de fase

Figura 4. Média de dias de sangramento ou escape não programado com drospirenona 4 mg (barras pretas) e desogestrel 75 mcg (barras cinza) nos ciclos 2 a 4, 2 a 6 e 2 a 9 de um ensaio de fase 3. A diferença foi significativa nos três períodos (21,5 contra 34,7 dias nos ciclos 2 a 9).

Reproduzido de Palacios S, Colli E, Regidor PA. PLoS One. 2020;15(6):e0231856 [11], Figura 2. Licença CC BY 4.0.

Depois do terceiro mês, o padrão tende a se manter. No implante, 60,5% das mulheres tiveram padrão favorável já no primeiro trimestre, e 84,6% delas continuaram assim no seguinte; entre as de padrão desfavorável, cerca de 40% a 50% melhoraram depois. O padrão inicial previu o abandono: 16,5% contra 2,5% no segundo ano [25]. A drospirenona deu menos dias de sangramento não programado do que o desogestrel (21,5 contra 34,7 dias em oito ciclos) [11].

Esse último ponto é raciocínio de consultório, aprendido com a Dra. Carolina Sales Vieira, e não tem estudo direto. As opções de tratamento variam com o método, e o fluxograma do CDC as resume (Figura 5) [4].

Fluxograma do CDC para o sangramento irregular durante a contracepção. Primeiro, tranquilizar e entender o objetivo da paciente; se ela quer parar, retirar o método e oferecer outr

Figura 5. Fluxograma do CDC para o sangramento irregular durante a contracepção. Primeiro, tranquilizar e entender o objetivo da paciente; se ela quer parar, retirar o método e oferecer outro. Se quer tratar, a opção depende do método: no DIU de cobre, AINE por 5 a 7 dias; no SIU-LNG, nenhuma intervenção testada; no implante, AINE por 5 a 7 dias, ácido tranexâmico por 5 dias, combinado com 20 a 30 mcg de etinilestradiol ou estrogênio por curto período, ou tamoxifeno por 7 a 10 dias; no injetável, AINE ou estrogênio por 10 a 20 dias; no combinado contínuo, pausa de 3 a 4 dias, nunca nos primeiros 21 dias nem mais de uma vez por mês. Antes de tratar, quando indicado, excluir gravidez, infecção, interação medicamentosa e lesão estrutural.

Reproduzido de Curtis KM, Nguyen AT, Tepper NK, et al. U.S. Selected Practice Recommendations for Contraceptive Use, 2024. MMWR Recomm Rep. 2024;73(3) [4], Figura E1. Domínio público (série MMWR, CDC).

Humor

Na coorte dinamarquesa de mais de um milhão de mulheres, o combinado se associou a 23% mais início de antidepressivo, a pílula só de progestagênio a 34% e o SIU-LNG a 40%; nas adolescentes, o risco relativo chegou a 1,8 com combinado e 2,2 com progestagênio isolado, com pico seis meses após o início [27]. A metanálise de 2026, com 14 estudos e 2,4 milhões de participantes, estimou 31% mais diagnóstico de depressão com contraceptivo oral, com certeza moderada e heterogeneidade alta [28].

Metanálise dos cinco estudos que mediram diagnóstico de depressão em usuárias de contraceptivo oral comparadas com não usuárias. Cada linha é um estudo (risk ratio = risco relativo

Figura 6. Metanálise dos cinco estudos que mediram diagnóstico de depressão em usuárias de contraceptivo oral comparadas com não usuárias. Cada linha é um estudo (risk ratio = risco relativo, com IC 95%); o losango embaixo é o resultado combinado, 1,31 (1,07 a 1,61). Olhe a dispersão: os riscos vão de 1,05 a 1,79, e a heterogeneidade de 94% mostra que os estudos medem populações e desfechos muito diferentes.

Reproduzido de Kellock MD, Potts HWW, Pinho G, Chilanga F, Farič N. Eur J Obstet Gynecol Reprod Biol. 2026;323:115144 [28], Figura 1. Licença CC BY 4.0.

São dados observacionais, que não provam causa. Mas eu fico com a regra prática: mulher que começa a ficar triste, sem prazer ou desanimada depois de iniciar um método hormonal, qualquer que seja, troca o método. Acredite na paciente. Isso não contraindica contracepção hormonal a quem tem depressão (categoria 1) [6]; pede atenção redobrada nos primeiros meses e nas adolescentes.

Libido

O combinado oral eleva a SHBG e reduz a testosterona livre em média 61% [29]. Isso explica parte das queixas de desejo, embora a relação entre o número e o sintoma não seja linear. Implante e SIU-LNG tiveram efeito neutro ou positivo sobre a função sexual em metanálise de estudos pequenos [30]. Diante da queixa, troco o combinado por um método sem estrogênio oral, que não mexe na SHBG. Se o desejo baixo persiste fora do anticoncepcional, a investigação segue outro caminho, discutido no texto sobre testosterona em mulheres.

Câncer de mama: a pergunta que sempre volta

Existe aumento pequeno, que vale para todos os hormonais. Na coorte de 1,8 milhão de dinamarquesas, o risco relativo foi de 1,20, ou um caso adicional para cada 7.690 mulheres usando o método por um ano [31]. Na metanálise britânica, o risco foi semelhante entre combinado, pílula só de progestagênio, injetável e SIU-LNG; o excesso absoluto depende da idade: 8 casos por 100 mil usuárias quando o uso ocorre dos 16 aos 20 anos e 265 por 100 mil dos 35 aos 39 [32].

Risco absoluto de câncer de mama em 15 anos com cinco anos de uso de contraceptivo oral, conforme a idade de uso: 16 a 20 anos (A), 25 a 29 (B) e 35 a 39 (C). Linha tracejada: usuá

Figura 7. Risco absoluto de câncer de mama em 15 anos com cinco anos de uso de contraceptivo oral, conforme a idade de uso: 16 a 20 anos (A), 25 a 29 (B) e 35 a 39 (C). Linha tracejada: usuária (OC user); linha contínua: não usuária (non-user). As duas curvas quase se sobrepõem; o que sobe o risco é a idade, e é por isso que o mesmo risco relativo pesa mais aos 38 anos do que aos 18.

Reproduzido de Fitzpatrick D, Pirie K, Reeves G, Green J, Beral V. PLoS Med. 2023;20(3):e1004188 [32], Figura 6. Licença CC BY 4.0.

A coorte sueca de 2 milhões de mulheres, que eu discuto na aula, refinou a conta por formulação: o risco relativo geral foi de 1,24, um caso adicional para cada 7.752 usuárias, um pouco maior com desogestrel oral e implante de etonogestrel (HR 1,18 a 1,22) do que com o combinado de levonorgestrel (1,09) e o SIU-LNG 52 mg (1,13); injetável, anel e combinado com drospirenona não tiveram aumento significativo (Figura 8) [45]. Num balanço geral, nenhuma associação entre contracepção hormonal e desfechos graves foi sustentada por evidência de alta qualidade [33].

Risco de câncer de mama por tipo e formulação de contraceptivo hormonal, na coorte sueca de 2 milhões de meninas e mulheres de 13 a 49 anos. Para cada formulação: pessoas-ano, caso

Figura 8. Risco de câncer de mama por tipo e formulação de contraceptivo hormonal, na coorte sueca de 2 milhões de meninas e mulheres de 13 a 49 anos. Para cada formulação: pessoas-ano, casos, diferença de risco por 100 mil pessoas-ano e HR com IC 95%; no gráfico, à direita da linha pontilhada fica o aumento de risco. Repare que quase todos os HR ficam entre 1,0 e 1,3 e que os maiores aumentos com significância são os do desogestrel (combinado ou isolado) e do implante de etonogestrel.

Reproduzido de Hadizadeh F, Koteci A, Karlsson T, Ek WE, Johansson Å. JAMA Oncol. 2025;11(12):1497-1506 [45], Figura 2. Licença CC BY 4.0.

Meningioma

É a pergunta nova do consultório, e os dados de 2026 merecem ser conhecidos. Num caso-controle dinamarquês de 25 anos, com 1.473 casos, o injetável trimestral se associou a risco 4,5 vezes maior de meningioma (OR 4,55; IC 95% 2,19 a 9,45); a pílula de desogestrel (1,73) e o SIU-LNG 52 mg (1,58) tiveram aumentos menores, o SIU de baixa dose não teve aumento significativo, e o risco foi maior com uso no último ano [46]. São dados observacionais, e o meningioma continua raro (cerca de 18 casos por 100 mil mulheres por ano na Dinamarca) [46]. Na prática, diante de meningioma ou de história dele, é mais um motivo para deixar o injetável de lado e conferir a elegibilidade no aplicativo. Em números absolutos, depois dos 40 o injetável dá um caso a mais a cada 4 a 6 mil mulheres-ano; as outras progestinas, a cada 20 mil ou mais (Tabela 3) [46].

Tabela 3. Quantas mulheres precisam usar o método por um ano para surgir um meningioma a mais (número necessário para causar dano), por progestina e faixa etária.

Método e progestina 20 a 24 anos 30 a 34 anos 40 a 44 anos 45 a 49 anos
AMPD injetável 99.064 24.238 5.968 4.337
Pílula de desogestrel isolado 478.933 117.180 28.849 20.964
SIU-LNG 52 mg 606.748 148.452 36.547 26.558
SIU-LNG 13,5 ou 19,5 mg 2.434.780 595.713 146.656 106.571
Combinado com desogestrel 532.863 130.375 32.097 23.324
Combinado com ciproterona 573.227 140.251 34.528 25.091
Combinado com drospirenona 604.604 147.928 36.418 26.464
Combinado com gestodeno 800.517 195.861 48.219 35.040
Combinado com levonorgestrel 869.693 212.787 52.386 38.067
Combinado com noretisterona 932.373 228.122 56.161 40.811
Combinado com norgestimato 8.375.294 2.049.164 504.473 366.587

Adaptado de Hasselblad Lundstrøm et al., 2026 [46]. Faixas etárias selecionadas (o original vai de 15 a 59 anos). Quanto maior o número, menor o risco; o risco cresce com a idade porque a incidência basal de meningioma cresce.

Quais medicamentos reduzem a eficácia da contracepção?

O mito de que todo antibiótico "corta" o anticoncepcional não se sustenta: antibióticos de amplo espectro, antifúngicos e antiparasitários são categoria 1 [6]. As interações que importam são poucas:

  • Anticonvulsivantes indutores enzimáticos (fenitoína, carbamazepina, barbitúricos, primidona, topiramato, oxcarbazepina): combinado e pílula de progestagênio são categoria 3; implante, 2; injetável e DIUs, 1 [6].
  • Lamotrigina: o estrogênio reduz o nível do anticonvulsivante e pode descompensar as crises; combinado é categoria 3, os demais métodos ficam livres [6].
  • Rifampicina e rifabutina: mesmo padrão dos indutores [6].
  • Tirzepatida: retarda o esvaziamento gástrico e reduziu a exposição ao contraceptivo oral [34]; a orientação britânica é usar método não oral ou barreira por quatro semanas após o início e após cada aumento de dose [35].

Contracepção acima dos 40: até quando e com o quê?

Idade não é contracepção. A mulher ovula até a última menstruação, e a gravidez nessa fase tem mais aborto, aneuploidia e complicação materna [4, 36]. Pela tabela, o combinado acima dos 40 é categoria 2 e pode seguir até os 50 na não fumante sem risco cardiovascular [6, 36]. Na minha prática, porém, dificilmente uso combinado depois dos 40 a 45 anos: a idade soma obesidade, hipertensão e resistência à insulina, e a progestina contracepta, bloqueia a flutuação da perimenopausa e não carrega o risco do etinilestradiol. Quando o combinado é a escolha, prefiro as formulações com estradiol. O raciocínio completo da transição está no texto sobre perimenopausa.

Para parar, sigo a diretriz da FSRH, a mesma do livro HORMOFEM [8, 36]: o combinado vai até os 50 anos; os métodos só de progestagênio, até os 55. Acima dos 50, em amenorreia, um FSH acima de 30 UI/L permite suspender depois de mais um ano. Métodos não hormonais param depois de dois anos de amenorreia antes dos 50, ou de um ano depois dos 50.

Quando interromper a contracepção, por método e faixa etária. O FSH só decide alguma coisa na mulher acima de 50 anos, em amenorreia, que usa método só de progestagênio.

Figura 9. Quando interromper a contracepção, por método e faixa etária. O FSH só decide alguma coisa na mulher acima de 50 anos, em amenorreia, que usa método só de progestagênio.

Fonte: Jacobsen L. Hormofem: terapia hormonal feminina. 4ª ed. São Paulo: Ed. do Autor; 2025. ISBN 978-65-01-71472-1 [8]. Adaptado de FSRH, 2017 (atualizada em 2025) [36].

Como usar a contracepção de emergência?

Há três opções. A pílula de levonorgestrel 1,5 mg em dose única e o acetato de ulipristal 30 mg, onde disponível, agem bloqueando ou retardando a ovulação e não são abortivos [1]. Devem ser tomados o quanto antes, até cinco dias após a relação. Até 72 horas, as duas têm eficácia semelhante; entre 72 e 120 horas, o ulipristal mantém o efeito, e o levonorgestrel perde eficácia [4, 37]. Na metanálise de Glasier, a gravidez foi de 1,4% com ulipristal e 2,2% com levonorgestrel (OR 0,58) [37]. O levonorgestrel pode ser menos eficaz na mulher com obesidade [4].

O DIU é o método de emergência mais eficaz: em 35 anos de estudos, a taxa de gravidez foi de 0,09% [38]. Num ensaio randomizado, o SIU-LNG 52 mg não foi inferior ao DIU de cobre (0,3% contra 0%) [39], o que abre uma alternativa para quem quer um método de longa duração sem cobre. A evidência para o SIU-LNG isolado ainda é limitada, e a revisão do JAMA considera razoável associar a pílula de emergência [1].

Quando a conduta muda?

  • Aura nova ou mudança no padrão da enxaqueca em usuária de combinado: suspender o estrogênio e reavaliar [6].
  • Dor ou edema assimétrico na perna, dispneia ou dor torácica: investigar TEV antes de qualquer ajuste.
  • Sangramento que não se explica pelo método (sinusorragia, sangramento persistente após o período de adaptação, padrão novo depois de meses estável): excluir gravidez, infecção e lesão estrutural antes de culpar a progestina [4].
  • Humor deprimido ou ideação suicida após iniciar o método: trocar o método e avaliar saúde mental [27].
  • Pressão acima de 160/100 mmHg, diagnóstico de câncer de mama ou trombose nova: rever a elegibilidade no mesmo dia [6].

Em resumo

Escolher contracepção é aplicar uma sequência: elegibilidade pela OMS e pelo CDC, eficácia real (que favorece os LARC) e o que o método precisa tratar além de evitar gravidez. O estrogênio é o componente que traz o risco trombótico, maior com etinilestradiol e com as progestinas menos androgênicas; os métodos só de progestagênio, com exceção do injetável, não aumentam trombose. Sangramento irregular, humor e libido derrubam mais métodos do que a falha, e o aviso prévio é metade do manejo. Depois dos 40, a progestina costuma ser a melhor escolha, mantida até os 55 anos ou até o FSH autorizar a parada. E a contracepção de emergência funciona antes da ovulação: quanto mais cedo, melhor.

O que muda no consultório

  1. 1Antes de prescrever, peça só história clínica, pressão arterial e IMC; não rastreie trombofilia de rotina.
  2. 2Na dúvida sobre uma condição clínica, consulte o aplicativo da OMS ou do CDC na hora da consulta.
  3. 3Se for usar combinado, prefira regime contínuo ou estendido e, com risco, levonorgestrel ou estrogênio natural em vez de etinilestradiol com progestina antiandrogênica.
  4. 4Avise do escape nos três primeiros meses de qualquer progestina contínua e só troque o método se o padrão seguir desfavorável depois disso.
  5. 5Paciente que fica triste ou sem prazer depois de iniciar o método: troque o método.
  6. 6Com anticonvulsivante indutor, rifampicina ou tirzepatida, prefira método não oral.
  7. 7Depois dos 40, prefira progestina; combinado até os 50, progestagênio isolado até os 55.

Perguntas frequentes

Quais são as categorias dos critérios de elegibilidade da OMS?

São quatro. Na categoria 1 não há restrição; na 2, as vantagens em geral superam os riscos; na 3, os riscos em geral superam as vantagens e o método não é recomendado, salvo sem alternativa aceitável; na 4, o risco é inaceitável e o método não deve ser usado. O CDC americano usa as mesmas categorias.

Quem tem enxaqueca pode tomar anticoncepcional?

Depende da aura. Enxaqueca sem aura permite o combinado (categoria 2). Enxaqueca com aura contraindica qualquer método com estrogênio (categoria 4), pelo risco de AVC isquêmico, mas libera todos os métodos só de progestagênio e os DIUs.

Qual anticoncepcional tem menor risco de trombose?

Os métodos só de progestagênio, como pílula de desogestrel ou drospirenona, implante e SIU de levonorgestrel, não aumentam o risco de trombose; o injetável trimestral é a exceção. Entre os combinados, o risco é menor com levonorgestrel do que com gestodeno, desogestrel, ciproterona ou drospirenona, e as formulações com estradiol parecem ter risco igual ou menor.

O DIU hormonal impede a ovulação?

Na maioria das mulheres, não. O SIU de levonorgestrel age espessando o muco cervical e atrofiando o endométrio, e a maior parte das usuárias segue ovulando. Por isso ele trata o fluxo intenso e protege o endométrio, mas não resolve sintomas cíclicos como os da TDPM.

Antibiótico corta o efeito do anticoncepcional?

Os antibióticos comuns não. As interações relevantes são com rifampicina e rifabutina, com anticonvulsivantes indutores enzimáticos e, para o combinado, com a lamotrigina. A tirzepatida também reduz a absorção da pílula nas primeiras semanas e a cada aumento de dose.

Anticoncepcional causa depressão?

Estudos observacionais grandes mostram associação pequena, maior em adolescentes e nos primeiros meses de uso, com todos os métodos hormonais. Não provam causa, e depressão não contraindica contracepção hormonal. Se a mulher piora do humor depois de iniciar um método, a conduta é trocar.

Anticoncepcional aumenta o risco de meningioma?

Alguns sim, em estudo observacional. Num caso-controle dinamarquês de 2026, o injetável trimestral se associou a risco cerca de 4,5 vezes maior; pílula de desogestrel e SIU de levonorgestrel 52 mg tiveram aumentos menores, e o risco foi maior com uso recente. O meningioma segue raro, mas na mulher com meningioma ou história dele o injetável deve ficar de lado.

Até que idade a mulher precisa de contracepção?

Até a menopausa. Pela diretriz britânica, o combinado pode seguir até os 50 anos e os métodos só de progestagênio até os 55. Acima dos 50, em amenorreia com progestagênio isolado, um FSH acima de 30 UI/L permite parar depois de mais um ano.

Até quantos dias depois da relação a pílula de emergência funciona?

Até cinco dias, mas quanto antes, melhor. O levonorgestrel perde eficácia depois de 72 horas; o ulipristal mantém o efeito até 120 horas. O DIU inserido em até cinco dias é o método de emergência mais eficaz.

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Jacobsen L. Contracepção hormonal: como escolher o método para cada mulher. Blog Científico HORMOFEM [Internet]. 2026 nov 8. Disponível em: https://hormofem.com.br/blog/contracepcao-hormonal-escolha-do-metodo/

Dr. Leonardo Jacobsen

Ginecologia e Obstetrícia · CRM/SC 20930 · RQE 17351

Ginecologista, professor e pesquisador em endocrinologia feminina. Fundador da Escola HORMOFEM e autor do livro Terapia Hormonal Feminina.

Conteúdo educativo destinado a profissionais de saúde. Não substitui a avaliação individual nem estabelece conduta para um caso específico.